Tuesday, July 19, 2011

Leia textos de contos e crônicas

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Friday, September 7, 2007

Sobre o Livro Ninguém para me acompanhar, de Nadine Gordimer

Vera Stark, advogada de uma fundação sul-africana cujo objetivo era garantir o acesso dos negros à terra, é a protagonista desta formidável obra de Nadine Gordimer. Sem dúvida, Ninguém para me acompanhar, é um grande romance. Aliás, não se poderia esperar menos desta autora, natural de Springs, na África do Sul, e Prêmio Nobel de Literatura em 1991.

Na época em que o regime do apartheid ainda domina a África do Sul, Vera Stark vive as emoções de lutas políticas, de perseguições e de injustiças. Frente a frente com negros e brancos — cada qual defendendo o mais bravamente possível seus pontos de vista e seus interesses — a competente advogada se vê envolvida com funcionários públicos incompetentes e relapsos, com brancos que não conseguem admitir a evolução dos tempos e dos costumes e, principalmente, consigo mesma, confrontando o trabalho que desenvolve e sua vida familiar. A autora aborda com muita propriedade temas até mesmo já muito batidos sobre a segregação racial e o racismo propriamente dito, vigentes não apenas naquele país, mas em todo o mundo. E, para surpresa de todos, Nadine Gordimer mostra a faceta humana — evidentemente cheia de falhas — de todos os personagens que povoam sua obra. Assim, a própria Vera Stark, por seu comportamento e atitudes, não esconde em momento algum o alto grau de egoísmo que possui. Está certo que ela trabalha por uma nobre causa, dedica-se ao extremo, até mesmo extrapola suas obrigações em muitas oportunidades — numa delas, chega a ser baleada — mas tudo isso é apenas conseqüência do que ela mesma se propôs a fazer. Tanto está trabalhando pelos negros e pela conquista de seus direitos, quanto poderia estar trabalhando com o mesmo ímpeto e a mesma dedicação, numa empresa de seguros contra incêndios. Falta-lhe o idealismo quase que religioso que tão bem caracteriza os que realmente se dedicam a uma causa, como se fosse a razão única de sua vida. A razão única da vida de Vera Stark parece ser tão-somente a sua realização profissional, a consciência de ter feito bem o seu trabalho, de não ser obrigada a escutar críticas de espécie nenhuma. Ou seja, falta-lhe viver com a alma os problemas dos negros que a procuram na Fundação, ao invés de vivenciá-los como uma autêntica burocrata o faz. Está aí a grande diferença entre ela e um de seus amigos, Didymus, ex-exilado e verdadeiro idealista — ou pelo menos o foi, durante o tempo em que se viu perseguido e ameaçado — dedicado apenas à libertação de seu povo, ainda que essa dedicação não conseguisse ser convenientemente dogmatizada ou normatizada. A esposa de Didymus, uma negra bonita e desempenada chamada Sibongile, é utilizada pela autora para exemplificar o fenômeno da subida à cabeça, ou seja, a embriaguez do poder e da própria glória. Sibongile, negra e sofrida durante os tempos de exílio, acaba por sofrer a influência da cultura européia branca e passa a ser exigente: não se adapta mais às condições de vida de seu povo quando de seu retorno à África do Sul, quer que a filha, Mpho, receba educação em nível de Primeiro Mundo, quer mostrar que é mais do que qualquer outro. Está certo que todos deveriam ter esses direitos, mas também é certo que não se sai da submissão para o domínio, sem sacrifícios ou mesmo, sem uma convulsão social e violência. E há violência no livro de Nadine Gordimer. Em doses certas, nos momentos certos, violência descrita com o cuidado de evitar o exagero. Tanto cuidado que a autora deixa de resolver a personagem Sibongile, posta numa lista negra da direita conservadora branca, deixando o leitor sem saber o que, afinal de contas, aconteceu com ela. O mesmo cuidado em poupar o leitor da violência sangrenta, Nadine Gordimer não tem com o que se refere a sexo. O livro é recheado de sexo — muitas vezes quase explícito — do começo ao fim. Há um componente de provável arrependimento por parte de Vera Stark por ter se divorciado muito jovem, arrependimento este que se pressente quando ela tem uma aventura amorosa com um alemão mais jovem. Nadine, certamente, quis mostrar que seus personagens são, de fato, pessoas normais, iguais a quaisquer outras, portanto sujeitas às fraquezas e aos problemas de todos os mortais comuns. Dessa maneira, Vera Stark se vê às voltas com o divórcio do filho, com o lesbianismo da filha e com o excesso de juventude — não apenas excessos da juventude — do neto. A advogada nutre um sentimento de profunda admiração, talvez até mesmo um amor platônico, amor não resolvido, por Zeph Rapulana, líder de uma township e que se transforma numa importante figura envolvida com a nacionalização de bancos e financeiras. Zeph é uma espécie de guru de Vera Stark, um sábio, quase um avatar, capaz de aconselhá-la e até mesmo de ditar regras e normas, mostrar caminhos e soluções. Vera acaba deixando o marido — o segundo, pai de seus filhos — para viver praticamente sob o teto de Zeph. Porém, não há aí nenhuma conotação sexual, ao menos do ponto de vista consciente por parte da advogada: ela apenas sente a necessidade de compartilhar com alguém sua dedicação ao trabalho, faceta de sua personalidade que, aparentemente, não tinha sido compreendida por seus familiares. E o empowerment acaba fazendo com que Rapulana passe a fazer parte do mesmo nível social de Vera, com direito a freqüentar plenamente e com segurança, a sociedade dos brancos.

A autora enfoca magistralmente — e sem cansar o leitor — as manobras políticas dos brancos para provar que os negros, ainda que detendo parte significativa do poder, não terão jamais possibilidade de se desenvolver. Uma das maneiras é possibilitar acesso, por exemplo, ao controle financeiro, mas sem lhes proporcionar o know-how necessário.

O fracasso, inevitável, é tomado por incompetência absoluta. Diga-se de passagem que esta é uma manobra de política suja que, de maneira nenhuma, pode ser considerada como exclusividade da África do Sul.

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O Crime da Beleza

Ruben Braga começou uma de suas crônicas assim: “Vovô vê a uva… Eu vejo a viúva”.
A diferença é que eu não vejo viúva nenhuma, minha atenção se concentra e se desvanece vendo a uva. Uma uvinha linda – minha netinha, hoje com quatro anos de idade.

Concomitantemente, salta-me aos olhos, através de um noticiário na televisão, a imagem de uma outra uva, esta com treze anos de existência. E fico pensando, preocupado, se daqui a parcos nove anos minha neta também estará assim.
Creio que não. Por mais que o modus criandi que minha filha usa para moldar a menina seja diferente – às vezes até mesmo antagônico – daqueles que nós, seus pais, lançamos mão para formá-la, acho que à minha neta jamais seria permitido chegar a tal absurdo.

Sim, absurdo, pois a menina que ali na telinha diz que tem apenas treze anos de idade, aparenta pelo menos vinte e três.

A. B. – vamos identificá-la assim, apenas com as iniciais, uma vez que não é nosso desejo infringir a Lei e esta diz que menores de idade envolvidos em alguma espécie de infração, não podem ter seu nome divulgado a não ser por suas iniciais – é, inegavelmente, linda. Possui um rosto de linhas puras, um corpo bem feito – talvez magro demais, para o meu gosto – cabelos bonitos, é elegante… Tem tudo para ser uma modelo de sucesso como, aliás, o é.

A. B. é a representação concreta do sonho da imensa maioria de nossas adolescentes: ela é uma modelo profissional com a agenda cheia e iluminada pelos holofotes da mídia especializada.

Quando ela começa a responder às perguntas do entrevistador, temos mais uma surpresa: sua voz, seu modo de falar, a lógica das respostas, a desinibição, a maturidade e a calma de A. B. em hipótese alguma condizem com a sua idade cronológica.

À luz do mais rudimentar conhecimento sobre a evolução individual de uma pessoa, percebe-se nitidamente que essa menina foi exaustivamente trabalhada do ponto de vista psicológico para que pudesse mostrar – ao menos nessa entrevista – que está muito mais madura até mesmo do que muitas mulheres já adultas. Olhando-a e ouvindo-a falar, esquecemos por completo de seus treze anos de vida… Ali está uma mulher e não uma menina!

Enquanto ela é entrevistada, a produção do telejornal passa algumas imagens de A. B. desfilando. Ela está usando – nessa imagem que mais se fixou à minha memória – um vestido bem decotado e que deixa entrever seios grandes, completamente dissonantes com o corpo de uma adolescente mal entrada na puberdade. A velha, ultrapassada e já comprovadamente errônea teoria afirmando que as brasileiras, por causa do clima tropical ou sub-tropical, teriam um desenvolvimento somático mais rápido do que as européias ou mesmo norte-americanas não é suficiente para explicar tamanha opulência. E, então, ela confessa que fez uma prótese de silicone. Cento e oitenta mililitros de cada lado… Argumenta que tal procedimento tinha sido necessário, uma vez que seus seios eram pequenos demais.

Esqueceu-se A. B. – bem como seus pais – que a Natureza não prevê para o desenvolvimento físico de uma menina de treze anos de idade, seios tão volumosos, mesmo porque sua coluna vertebral ainda não está desenvolvida a ponto de suportar esse peso.

A pergunta bate-me, de chofre: qual foi o médico que aceitou fazer essa cirurgia, sabendo que estaria infringindo não apenas a lei dos homens, mas uma lei muito mais sábia que é a da própria Natureza? Não pode ter sido um incompetente qualquer, tanto que se pode notar o chamado sucesso cirúrgico, ou seja, o médico obteve plenamente o resultado pretendido.

Então vem a triste certeza: não teria existido outro motivo para a realização dessa cirurgia que não o dinheiro. Assim como também foi o dinheiro – muito bem amparado pelos alicerces de uma situação a que se denomina fama – que motivou os pais de A. B. a permitirem que se lhe tenha sido arrancada a infância e a adolescência como num passe de mágica: hoje, você é uma menina; amanhã será uma mulher, sendo que esse amanhã é realmente amanhã, apenas vinte e quatro horas depois e não um amanhã metafórico, que sugere todo um futuro, décadas, talvez um lustro para a frente.
Neste momento, A. B. está afirmando estar consciente de que a carreira de modelo tem curtíssima duração e que já está se preparando para a aposentadoria – provavelmente compulsória – aos vinte e poucos anos de idade.

Reflito: A. B. perdeu a infância e a adolescência preparando-se arduamente para brilhar nas passarelas; e um erro estratégico, uma malandragem por parte das pessoas que se encarregaram de administrar o dinheiro que ela ganhou, pode decretar que ela também perca não apenas a mocidade, mas a vida toda. Aliás, somaticamente, ela já está perdendo pelo menos dez anos de vida, já que foi envelhecida de propósito prematuramente. Com treze anos, ela aparenta pelo menos vinte e três…

Minha atenção retorna ao vídeo e vejo-escuto a menina dizer que tinha sido obrigada – por causa dos incontáveis compromissos profissionais – a abandonar os estudos na sétima série. Voltará ela à escola depois, quando se aposentar? Tenho toda a liberdade de pensar: duvido.

Faz-se um verdadeiro escândalo de mídia quando se fala de casos de meninos-carvoeiros, meninos-mulas carregando fardos pesadíssimo de erva mate, de flanelinhas explorados por adultos nos semáforos das grandes cidades. Diz-se alto e a bom som que lugar de criança é na escola. O governo chega a fazer – e a mal executar – projetos de acréscimo – ridículo – de renda familiar para possibilitar crianças a deixarem de trabalhar para poderem se dedicar aos estudos. São crianças pobres, de famílias pobres, com sonhos mais chãos…

Mas ninguém fala – pelo menos de forma suficientemente clara – a respeito dessas meninas, boa parte delas vindas de famílias de classe média, que trabalham muitas vezes incomparavelmente mais do que qualquer menino-carvoeiro, por exemplo, na perseguição do sucesso e da fama nas passarelas. E, evidentemente, na perseguição dos gordos lucros monetários que a posição de top model pode auferir.

Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, a profissão de modelo, para qualquer dessas meninas, é contrária ao que ditam os incisos I e II do artigo 63, que onde fica expressa a garantia de acesso e freqüência obrigatória ao ensino regular e atividade compatível com o desenvolvimento do adolescente. O mesmo Estatuto estabelece como crime o fato de adultos obrigarem crianças a trabalhar.

Portanto, no caso de nossas tão jovens modelos, estão sendo cometidos – assim a olhos vistos – pelo menos dois crimes: o afastamento das meninas dos bancos escolares e a exploração do trabalho infantil, crime este em que seriam réus os agentes e os pais da modelo.

Pensando mais um pouco, encontro mais criminosos: o médico que lhe implantou próteses de silicone, o nutricionista que lhe estabeleceu uma dieta magra, tão magra que no máximo lhe permite a sobrevivência, os fotógrafos que não se inibem de fotografar sua nudez – e isso poderia ser catalogado como crime de corrupção de menor – o psicólogo que lhe enfiou na mente uma auto-estima que ela ainda não está preparada para assumir e a própria mídia, que divulga e exalta uma menina que, aos treze anos, tem corpo, cabeça e trabalho de uma mulher no mínimo dez anos mais velha.

A modelo, esta, não tem culpa nenhuma. Ela é a vítima típica, aquela que sofre em virtude da ambição material de pais, agentes, médicos, nutrólogos, fotógrafos, repórteres e todos mais que, em função da assincronia idade-função-trabalho da modelo, ganham verdadeiros rios de dinheiro.

É mais do que natural que uma menina, desde muito cedo, tenha como ídolo qualquer uma dessas modelos lindíssimas que diariamente estão na telinha. O que não pode ser considerado como natural é o fato de essa menina ser excessivamente estimulada a se tornar uma delas. Pior ainda: os pais dessa menina – principalmente a mãe – fazer de tudo para que ela assim o seja. Isso implica no desprezo da base fisiológica da vítima, vale dizer que inúmeras vezes os adultos que a cercam fazem questão de fechar os olhos às evidências mais simples, tais como o biótipo da menina, e forçam-na a ser fisicamente algo que a Natureza, já em seu código genético, impedira-a de ser. Crime de lesão corporal grave, com dolo?

Escuto um toc-toc meio dissonante e descompassado às minhas costas e vejo – com um arrepio de terror – minha netinha aparecer calçando os sapatos altos de sua mãe.

Penso um pouco antes de responder afirmativamente à sua pergunta vovô, estou bonita? E estremeço quando ela dá uma volta sobre si mesma – quase caindo dos saltos, é verdade – e diz: Quando eu crescer, vou ser como a Gisele Bündchen!

Assim espero, minha uvinha… Assim espero. Mas, veja bem, somente quando você crescer.
Quando terminar de crescer!

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Tuesday, August 28, 2007

O SEBO

Pouco maior que uma quitanda e quase tão sujo quanto uma peixaria malcuidada, este estabelecimento comercial não deixa de ter seu encantamento, sua poesia.

Todo o mobiliário se resume a uma escrivaninha em que o proprietário faz suas anotações, duas cadeiras ordinárias e montanhas de livros espalhadas pelo meio da loja, empilhadas pelos cantos, que sobem pelas paredes formando uma decoração caótica e complicada. Em todos os montes são desrespeitados os princípios mais elementares do equilíbrio e vê-se claramente que não há a menor preocupação com a estética. Aliás, não é mesmo possível adotar qualquer ordem de arrumação, pois os volumes, cada um diferente do outro em tamanho, cor e forma, não permitem tal luxo.

E há um certo aroma no ar! Sim, pois assim como uma quitanda ou uma peixaria tem seus cheiros característicos, esta loja também tem o seu: é um cheiro de mofo, de poeira misturada com nicotina e papel velho. Pode ser que seja o inferno para os asmáticos, mas conheço muitas pessoas que adoram essa mescla de estranhos perfumes… Entre elas há até as que dizem que esse é o cheiro da verdadeira intelectualidade.

Estamos num sebo, numa loja de livros usados, de segunda ou mesmo de enésima mão.

Já pela simples disposição das mercadorias, vemos que é absolutamente impraticável toda e qualquer operação de limpeza.

Faxina, então, nem pensar! Imaginem ter de levar tudo aquilo parra algum lugar para se poder passar um pano no chão! Varrer, apenas varrer, já é uma tarefa complicada e arriscada, pois seria muito fácil misturar com o lixo diversos opúsculos e livretos que jazem pelo assoalho em completa intimidade com pontas de cigarro, papéis de bala, palitos de fósforos queimados e muitas outras coisas ainda bem menos nobres e poéticas. Isso, é claro, sem falar do perigo de se esbarrar numa avultada pilha de enciclopédias, mal equilibrada sobre um dicionário, e causar um monumental desastre… Há até o risco de morte. A morte sob o peso do conhecimento!

Encontrar, especificamente, uma obra ali? Tarefa totalmente impossível. Nessa loja, compra-se aquilo que o acaso faz cair nas mãos. Lobato está ao lado de Eça que, por suas vez, está por cima de Montaigne, que, inexplicavelmente, está apoiado em Rousseau — que se encontra frente a frente com Byron. O positivismo se avizinha do tomismo e Kant se deixa montar por Sartre e por Baudelaire. James Joyce disputa um instável lugar com Hemingway, enquanto Jorge Amado e Simone de Beauviur empurram Thomas Mann para uma posição perigosa.

Sorrindo, vemos que inimigos mortais em vida se encontram agora lado a lado, deitados juntos, placidamente instalados. Talvez em seus túmulos, eles estejam remexendo, cheios de revolta…

Fonte: www.ryoki.com.br/sebo.htm

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Wednesday, August 22, 2007

JUS ESPERNEANDI

A Justiça dos homens – e muito provavelmente, a desta nossa amada terrinha, em especial – concede ao réu o direito de espernear. Mormente quando se trata de um réu de cheia carteira. É exatamente como na fábula de Lobato, O sapo e o latão de leite, em que um gordo Bufus sp., vai parar dentro de um latão de leite e, persistente, esperneia sem parar e acaba por se salvar porque, com toda a sua movimentação, o leite se transforma em manteiga. Ora, isso só foi possível porque o leite era gordo – portanto, rico – e teve condições de se transformar em manteiga. Fosse o leite ralo, magro, pobre, o sapo teria morrido, o leite jamais se transformando em manteiga.

O réu de rica carteira pode espernear, pode lançar mão do jus esperneandi, pois tem como sustentar os advogados, tem como bancar as custas de um longo processo, de uma seqüência inimaginável de movimentações jurídicas que culminam, indefectivelmente, num prolongamento do tempo de processo e até mesmo a que este venha a terminar quando uma eventual pena já esteja devidamente prescrita.

E isso, é óbvio, sem contar com os incríveis, complicados e demorados meandros processuais que fazem com que o réu venha a ser julgado, a sentença proferida – e depois ou o julgamento é anulado ou a sentença é reformada. O resultado, não importa o que aconteça, é sempre o mesmo: impunidade para os ricos culpados e grade para o pobre, seja este culpado, semi-culpado ou até mesmo inocente.

Está certo, minha senhora e meus senhores… Pelo menos filosoficamente não existe meio culpado, assim como não pode existir uma mulher que esteja meio grávida, ou alguém que seja meio homossexual. Essas coisas, não admitem meio-termo, bem sei. Mas somos obrigados a admitir – não concordam? – que há uma diferença significativa entre aquela mãe pobre (vejam bem que não se trata simplesmente de uma pobre mãe) que rouba um pote de margarina no valor de R$1,50 e o político que mete a mão em um milhão e meio de reais… E o engraçado é que este último não vai parar atrás das grades, enquanto a mãe pobre fica meses mofando numa cadeia imunda.

Mas citei como exemplo de desonesto rico um político qualquer e cometo, com isso, uma injustiça. Temos a esperança de que nem todo político seja desonesto, criminoso. É bem verdade que seria preciso procurar com uma lanterna, tal como Diógenes… Mas deve existir. Impossível que toda a política esteja tomada por bandidos de gravata!

Acho que eu seria um pouco mais justo se mencionasse, também como exemplo de impunidade, os bandidos que já estão atrás das grades e que, mesmo assim, lá de dentro dos presídios devidamente transformados em escritórios administrativos do crime, continuam a gerenciar suas atividades, a ganhar rios de dinheiro e, graças a sólidas e imensas fortunas, seguem comprando desde carcereiros até desembargadores, passando por toda a escala cromática da hierarquia judiciária.

E isso sem levar em conta a palhaçada caríssima de se transportar criminosos de Catanduvas para o Rio de Janeiro, por causa de uma audiência. E o transporte é feito num jato executivo! Provavelmente com lanchinho a bordo, e isso se não houver o privilégio de um drinque. Importado, é óbvio.

E lá vai Fernandinho voando luxuosamente para o Fórum… E lá vem Fernandinho de volta para seu apê em Catanduvas… E nós, pagando, é claro.

Não tinha sido autorizado o sistema de julgamentos através de vídeo-conferência? E a troco dequê o raio do julgamento foi adiado? E onde será que Fernandinho vai esperar pela nova data? Será que numa suíte presidencial do Copa? Dinheiro para isso ele tem, se quisesse e pudesse optar. Mas para quê? O governo, com certeza, há de lhe proporcionar acomodações confortabilíssimas e… muito mais seguras e garantidas do que em qualquer cinco estrelas!

Enquanto isso, a mãe pobre mofa num depósito de presos. Cria bolor e revolta. O defensor público, se é que houve um, mal leu o processo, deixou que as coisas corressem. O juiz que deu a sentença – ou que simplesmente foi protelando o andamento do processo, por ser algo de pequena monta e que não haveria de gerar qualquer tipo de benefício – nem se deu o trabalho de analisar motivos, razões, situações. Ela roubou? Há de pagar! E fecha o processo, apressado, para atender o telefonema do advogado de um traficante de peso, dono de cinco casas de bingo, advogado este com quem se encontrou no jantar da véspera, durante o qual recebeu um envelope pardo e pesado, para lhe dizer que sossegasse, que até o fim do dia o seu cliente estaria em liberdade.

Ou seja, gozando em toda a plenitude a Impunidade.

FONTE: http://www.ryoki.com.br 

Posted by kirsteller@yahoo.com in 22:34:51 | Permalink | Comments Off

O Brasil é maior do que seus políticos

Mas será, mesmo? Ou, melhor perguntando, se for, por quanto tempo agüentará? Será que Deus é tão brasileiro a ponto de nos dar a capacidade de resistir eternamente a tudo isso que é feito – pelo menos parece – de propósito para destruir este país? Ou será que Ele é tão pândego que só pensa em gargalhar das coisas realmente inacreditáveis que vemos acontecer por aqui?

Muitas vezes penso que é esta segunda alternativa a mais válida. Deus se entristece assistindo de Seu trono no Céu as barbaridades cometidas no Iraque, no Afeganistão, na Chechênia e em muitos outros lugares. Certamente chega a derramar Suas lágrimas divinas ao ver tantas crianças morrendo de fome na África… Muito provavelmente revolta-se com a teimosia dos homens que insistem em produzir armas de destruição em massa. Irrita-se com a excessiva ganância dos poderosos que, para se tornarem ainda mais poderosos – e só para isso, realmente, pelo poder – não hesitam em exterminar os mais fracos que, segundo esses mesmos poderosos, não têm importância nenhuma, existindo apenas para superpovoar o mundo e, com isso, constituírem populações maiores ainda de famintos. Conseqüentemente, mais problemas para os mais ricos.

Esquecem-se esses mais ricos que só se tornaram assim graças ao trabalho, ao suor e ao sangue desses mais pobres.

Mas estava eu dizendo que Deus – que também tem sentimentos – fica triste com tudo o que vê de errado no mundo. Ora, como diz a Bíblia e nós, pobres crédulos que somos, acreditamos, da mesma maneira que a Ira de Deus é terrível, a Sua tristeza deve ser imensa… E seguindo a teoria da dualidade das coisas, se há uma tristeza imensa, tem de existir… uma pândega também imensa.

Conclusão lógica: a pândega de Deus é imensa.

E Ele há de ter onde descarregar essa pândega, pois não nos é possível imaginar que Ele se desaguache lá mesmo no Céu, pregando peças em São Pedro ou contando piadinhas racistas para São Benedito. Deus tem de ter uma válvula de escape aqui na Terra e…

Penso que estou certo a cada dia que passa e que mais se aproxima do fatídico 1º de outubro, quando haverá a enorme probabilidade de sacramentar-se a maior besteira deste lado do Meridiano de Tordesilhas desde o Dia do Descobrimento, ou seja, quando cerca de 61 milhões de ingênuos farão voltar – melhor dizendo, deixarão permanecer – uma situação de caos, de mentiras, de crimes e de prevaricações jamais vista nesta terra.

Ele, o nosso Deus, só pode achar graça nisso tudo que está acontecendo.

E como não rir? Como não rir de um povo que se deixa enganar permanentemente, que não percebe – ou simplesmente não acredita naqueles que percebem – que tudo isso não passa de uma comédia? E, diga-se de passagem, de uma comédia ruim, daquele tipo pastelão, que o expectador ri mais de raiva do que da impossível graça que lhe foi tentada transmitir?

Como é possível não rir de nossa própria benevolência – para não dizer ingenuidade ou burrice – por nada fazermos apesar de termos visto na telinha, o presidente-candidato descer de um avião da FAB para ir fazer um comício de campanha? Sim… Já sei que os do contra, mesmo amigos meus, dirão que ele foi até aquela cidade numa missão oficial e que o comício aconteceu depois do expediente. Sim… Mas o avião presidencial foi embora sozinho? Ou esperou pelo presidente-candidato? Será que só ele-lá-lá tem direito a condução sustentada pelos contribuintes?

Não vi uma menção de um só jornalista a esse respeito… Onde está a nossa imprensa?

Ah! Já sei! Ela está lá-lá…

Mas… Voltando a Deus. É mais do que sabido que Deus prega – ou ordena, uma vez que, afinal de contas, Ele é o dono de tudo e muitas e muitas vezes nos deixa com a certeza de que somos filhos do leiteiro e não do dono – a humildade.

E deve dar muita risada quando escuta a propaganda eleitoral em que ele-lá-lá diz com a maior cara dura-hirsuta: “Agora, conheço o mundo e o mundo me conhece”.

De fato…

Maior humildade é impossível. Mas, talvez ele-lá-lá tenha razão. O mundo o conhece, especialmente os biólogos que, hoje, têm uma nova espécie para estudar: Bufo hirsutus.

E só espero que Deus, tendo o palhaço de quem rir, deixe um pouco de lado a Sua ira e sorria com benevolência para nós, pobres brasileiros, e permita que surja – agora, acho que mesmo só por milagre – um tuiuiú de bico forte e estômago mais ainda, que engula o Bufo hirsutus e, como sobremesa, faça uma limpeza na lagoa e elimine todos os candirus que por lá-lá se encontram, parece que com a única finalidade de entrar no buraco dos outros…

E, mais uma vez, que me perdoem os tuiuiús, os candirus e, especialmente os sapos, que não merecem ter um colega de gênero tão ruim.

FONTE: http://www.ryoki.com.br

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Não vai sobrar ninguém

Por que será que não nos surpreendemos mais com essas notícias que vêm de Brasília? A cada dia que passa é uma novidade… E novidades que, em outros países, especialmente ao norte do Equador, seriam suficientes para, no mínimo, causar renúncias de cargos, demissões e – conforme o caso – até mesmo suicídios.

Mas aqui nesta terrinha abençoada por um Deus que se faz representar por Herr Hatzinger (daí, talvez, a certeza de sua falibilidade), as novidades acontecem, as denúncias surgem, há uma certa agitação – para inglês ver – e, assim que a poeira assenta, tudo volta ao status quo ante. Nada acontece, tudo continua absolutamente igual. Apenas nossos políticos sujaram-se um pouquinho mais – mas nada que uma boa lavadeira não consiga consertar, especialmente se essa lavadeira já estiver bem treinada numa certa forma muito peculiar de lavagem.

Agora foi a vez do Renan. Ele mesmo, o Calheiros, presidente do Senado. Um homem que deveria ter conduta exemplar, comportamento a servir de modelo.

Mas não… Eis que surge uma filha, uma mulher que o leva à Vara de Família por causa de pensão alimentícia e comprovação de paternidade. Coisas que costumamos ver nos jornais, implicando pessoas de esferas político-sociais bem mais baixas e que, vez por outra, acabam em tragédia.

Aliás, a bem dizer a verdade, a tragédia aí já está: o presidente do Senado envolvido com propinas, presentes inadequados, aventuras extra-conjugais, filha fora-de-hora. Um caso amoroso ainda pode ser perdoável – desde que exista realmente o amor. Não é porque um indivíduo está ocupando a cadeira central da mesa do Senado que ele está livre de se apaixonar, de sentir a necessidade de mudar a vida. Tal fato já ocorreu com tantos… Veja-se o exemplo do Ciro Gomes. Mas ele assumiu. E o caso não foi parar em nenhuma Vara de Família.

Com o Renan foi bem diferente. A prova de que não houve amor está justamente no fato de a mulher envolvida ter de ir parar diante de um Juiz para discutir pensão alimentícia e paternidade. Se amor houvesse, esses detalhes seriam absolutamente supérfluos. Como dizem os advogados, intempestivos, impertinentes e extravagantes.

Outro fator a ser considerado: ao assumir um “rebento”, é no mínimo mais ou menos normal que o pai assuma o seu sustento tirando do próprio bolso as despesas decorrentes da existência de um ser que, de fato, não pediu para vir ao mundo. E o Renan “entregou” a lista dessas despesas para uma empresa… Que certamente não aceitou tal encargo simplesmente pelos belos olhos envidraçados do Senador. Sabemos todos que no mundo dos negócios e da política, não há essa história de ir para a cama por amorzinho… Há pagamento, troca, barganha, escambo. Isso sim.

No episódio Renan, houve apenas um “caso”. Tão fortuito que as conseqüências acabaram por gerar a confusão. E a confusão não é a menina – por sinal, se puxou a mãe, será bem bonita – mas sim a necessidade patológica de seguir errado aquilo que começou torto. Houve o erro – de cálculo, de comunicação, de pontaria – e parece que o implicado na história pensou seguindo a velha norma do “perdido por perdido, perdido e meio”. E isso para ser delicado… Por que gastar o meu dinheiro se é tão simples fazer com que outros gastem por mim? Por que pagar por um ato se outros podem fazê-lo por mim? Na verdade, parece ser esta a sina do brasileiro – o comum, aquele que trabalha e sofre calado, aquele que não foi laureado com um diploma de político e nem deixou um lugar reservado no Inferno – aquele que Herr Hatzinger garantiu que existe para punir as pessoas que andam mal nesta vida – e transformaram-se em empresários ou profissionais corruptos. A sina do brasileiro é pagar para qe outros usufruam. Cinco meses de trabalho por ano só para pagar impostos! E ainda se valesse a pena…!

Mas é isso aí… A julgar pelo que andamos vendo nestes últimos tempos, periga de não sobrar ninguém no Congresso, no Judiciário, no governo.

Mas, como já foi dito antes e até virou título de livro, sempre há esperança.

E a esperança é praticamente uma certeza, pois o Poder Judiciário, num formidável mecanismo de auto-defesa, acabará por absolver todo mundo – ou quase todo mundo, deixando um ou outro Tiradentes ser sacrificado – de forma que sempre sobrará muita gente.

Concomitantemente, o Congresso fará o mesmo.

E nós continuaremos a acreditar no IBGE, no IBOPE, nos índices, nas porcentagens, nas palavras e lágrimas do Presidente… Continuaremos a pagar impostos para assistir ao desgoverno, para ver nossos representantes ganharem fortunas por mês, para ver os três pilares da nossa sociedade – a Segurança, a Educação e a Saúde – esboroarem dia após dia, governo após governo.

E Deus – que disseram ser brasileiro – parece achar graça.
O que não é contraditório, pois nós somos mesmo uma piada. Pena que seja uma piada muito sem graça.

FONTE: http://www.ryoki.com.br

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Vivendo o inferno

Alguém disse que Deus é brasileiro. Creio que há um engano por aí… Mais provável que Deus seja mesmo um grande gozador. Ou, então, deixou-se contaminar pelo espírito dos nossos homens públicos e acabou se tornando um mau brasileiro. Tenho comigo que essa é a hipótese mais provável. Deus é brasileiro, sim. Mas acabou por virar “brasileiro” demais. Quem sabe, até tenha aderido ao PT… Nosso pobre e abandonado país vive o caos na infraestrutura: transporte aéreo parado, estradas ruins/péssimas, portos sucateados, transporte ferroviário inexistente, transporte hidroviário (mas o que é isso?) inominável, saúde pública sem comentários (e o nosso Lulinha diz que está beirando a perfeição!), a educação que não educa ninguém (viva Paulo Freire!), a segurança que não existe, os impostos exorbitantes, os políticos fazendo o que querem e impunes, o salário mínimo continuando a ser uma vergonha (enquanto os “big-shots” do Planalto Central determinam salários para eles mesmos que tocam as raias do exorbitante), o Ministro da Defesa que se transformou em técnico de esconder o sol com uma peneira, os comandantes das Forças Armadas – especialmente da Aeronáutica – completamente desautorizados, o MST e similares invadindo fazendas produtivas e alegando que é uma forma de protesto contra a lentidão da reforma agrária, a Copa que perdemos… e muitas outras facetas da vida que nos leva seriamente a pensar em reformular a frase inicial: se Deus é brasileiro, então não dá para entender mais nada.

Está certo, a economia parece que anda bem. No fundo, o medo: será que isso é só aparência? Será que, de um momento para o outro a “coisa” não vai esboroar?

Está na hora de o povo brasileiro abrir os olhos. Não se trata de pregar uma revolução. O brasileiro de hoje não é disso, nem sabe o que é isso, principalmente porque desde há pouco mais de vinte anos – uma geração inteira! – vem sendo incutida na mente de todos o “sentimento democrático”, a “obrigação constitucional”, o “civilismo” (não a civilidade, vejam bem!) e o repúdio ao passado político (entenda-se o período de 1964 a 1985). Os nossos estudantes não têm preparo político (nem mesmo instrucional) para levantar a voz e protestar como se deve. Eles não têm nem mesmo idéia de sobre o que protestar. Aliás, o que tem acontecido é exatamente isso e protesto brasileiro acaba virando samba, com trio-elétrico e tudo o mais. E isso vem de longe, para consolo do governo atual, vem desde o governo FHC, com os protestos contra as privatizações. Lembro bem que perguntei a um manifestante na Avenida Paulista a razão de todo aquele protesto e ouvi como resposta que ele não sabia, mas estava ali porque o tinham mandado participar. Admirado com o que ele me falou, perguntei a vários outros. As respostas variaram, houve até quem esboçasse uma explicação de que era contra se vender o país para estrangeiros e houve uma moça que disse estar protestando contra a venda da Amazônia para os japoneses…

Disse que o povo deveria abrir os olhos. Não foi o que aconteceu na última eleição. Não apenas o presidente manteve o cargo, mas inúmeros outros políticos permaneceram, impunes ou apenas aguardando a impunidade.

É hora de renovar. E é mais do que hora de o presidente reeleito, este sim mais do que qualquer outro brasileiro, abrir os olhos e os ouvidos e começar a demitir. Deixar um pouco de lado suas metáforas futebolísticas – não se pode tomar como modelo o futebol para dirigir um país, essa história de “em time vencedor não se mexe”, mesmo porque o nosso time parreirense não conseguiu nada, portanto não é vencedor de coisa nenhuma – e passar a agir com menos autoritarismo e mais… democracia. Ou será que ele também vai aderir à idéia satânica de Chávez e instituir aqui a reeleição por tempo indefinido?

Sim, o presidente precisaria começar a demitir seu primeiro escalão. Se ele fizesse uma filtragem honesta – coisa difícil, hem? – certamente veria que seus ministros estão muito aquém das exigências mínimas do país. Se houvesse brasilidade – leia-se patriotismo – lá no Planalto Central, não haveria “negociação” para os Ministérios e muito menos a criação de novas pastas só para atender as composições políticas. Ministérios deveriam ser chefiados por técnicos, especialmente as pastas eminentemente técnicas.

Com tudo isso, nosso pobre Brasil está vivendo um inferno. E a tendência, pelo visto, é piorar.

Mas há saída. E ela está em nós, brasileiros ainda não contaminados. Precisamos reagir, gritar, espernear… Sobretudo, precisamos pensar na hora de votar.

Precisamos, simplesmente renovar. Ou forçar a renovação.

E esquecer essa história de que Deus é brasileiro, nada nos faltará.

Se olharmos bem, veremos que tudo está faltando. Principalmente vergonha na cara.

FONTE: http://www.ryoki.com.br

Posted by kirsteller@yahoo.com in 22:32:20 | Permalink | Comments Off

Brasil, uma grande lagoa

Já na apresentação dos candidatos deu para notar a diferença. Um debate entre candidatos à Presidência da República, meus amigos, é coisa séria. Implica no mínimo num certo aplomb. E isso, tanto Alckmin como Cristovam demonstraram. Já HH… Não deixa de ser uma falta de respeito para com o eleitorado apresentar-se usando jeans e uma das famosas – pelo menos esperamos e imaginamos que não seja sempre a mesma – blusinhas brancas de babadinhos rendados. Até parece promessa para mãe-de-santo! Está certo que HH não precisaria estar vestindo Dior, Leonard nem mesmo um modelito Daspu. Mas deveria se apresentar de maneira um pouco mais condizente com o evento que esteve vivenciando. Sua equipe de aspones deveria ter lhe contado que um debate televisivo não é a mesma coisa que o corpo-a-corpo nas ruas.

Mas, deixando de lado as críticas sobre a indumentária da top HH, acho que todos os que assistiram o debate tiveram a oportunidade de concordar com o Bufo hirsutus: a virulência da onça alagoana mal se conteve. Aliás, só não extravasou de vez por causa da ausência batraquial. Se ele ali estivesse, o Paranoá seria pequeno para tanta água e lama esparramada.

Sem a majestática presença do Bufo rex, o encontro de candidatos – mesmo porque debate, pelo menos para mim, tem uma outra conotação, algo assim como um jogo de perguntas e respostas rápidas, inteligentes, objetivas e precisas, não uma exposição de idéias em que as perguntas muitas vezes não são mais do que pequenos e delicados ganchos aproveitados para emendar explanações completamente fora do assunto proposto – até chegou a parecer um encontro de compadres. Exclua-se a comadre, uma vez que HH não fez mais do que lamentar e condenar o passado, aproveitando para atacar FHC sempre que atacava Lula, obviamente visando solapar o terreno pisado por Alckmin.

O jogo foi no mínimo interessante. Cristovam e Alckmin pareciam estar combinados, jogando no mesmo time. Um dava a deixa e o outro emendava. Bastante civilizada a atitude. Não duvido que, se milagres existirem e Alckmin chegar ao Planalto, este convide Cristovam para uma pasta. Provavelmente a da Educação, tendo em vista que é este o foco – e praticamente o único tema – da campanha do ex-reitor da UnB. Na verdade, não seria uma má aquisição.

Enfim, num balé bem orquestrado, os dois conseguiram expor minimamente seus planos de governo. Pena que o Bonner tenha sido tão exigente em questão de contagem de tempo e, com isso, acabamos – nós os telespectadores – ficando com uma desagradável sensação de coito interrompido.

Já HH mostrou bem a que veio. Sua incontestável virulência – queixa principal do Bufo pseudo-rex – transpareceu com terrível e triste nitidez. A mágoa de sua expulsão do PT saía por todos os poros, deixando a clara impressão de que, com ela, o revanchismo seria uma meta.

Cristovam deu a tônica do encontro – recuso-me a chamar de debate – quando, ao encerrar, pediu votos para qualquer um que não seja o presidente-candidato, para que seja possível um segundo turno.

Enquanto isso, o Bufo hirsutus coaxava em São Bernardo – segundo ele, a terra onde nasceu politicamente – ao lado de todo o seu bando, incluindo dois mensaleiros: o professor Luizinho e José Mentor. Absolvidos das acusações não por uma questão de justiça, mas sim de política. Podre, evidentemente.
E entre as muitas coisas que coaxou, saiu-se com esta pérola: “Ainda vou publicar um livro sobre alguns articulistas nesses quatro anos de governo para ver a quantidade de maldades” perpetradas contra ele e sua família.

Seria interessante que fizesse isso mesmo. E que esse livro fosse realmente publicado. Porém, sem revisão e sem copy-desk. Que é para que a posteridade veja a que ponto chegamos. Eleger um presidente assim, até que passa. Num momento de revolta, de tentativa de mudança, admite-se. Mas, depois de quatro anos de desencantos e desencontros, repetir o erro… Aí, já nem mesmo é burrice. É a resignação, a admissão da incompetência de eleger.

Ou, simplesmente é uma questão de fraternidade, de espécie.
Afinal de contas, para a sapa, a coisa mais bonita do mundo é o sapo.
E, segundo as pesquisas eleitorais, pelo menos 50% do povo brasileiro pertence ao gênero Bufo.
Bufo stultus.

FONTE: http://www.ryoki.com.br

Posted by kirsteller@yahoo.com in 22:31:31 | Permalink | Comments Off

Será que há algo errado?

Na minha ingenuidade e ignorância política – aliás, justificada mesmo porque a política brasileira atual está muito mais complicada do que jamais – não consigo entender o que acontece com as pesquisas eleitorais. Tenho conversado com muita gente e a imensa maioria garante que não quer uma reprise no Planalto. Em miúdos: não vai votar no Lula. E até mesmo diversos petistas conhecidos meus são da mesma opinião, hoje em dia abominando o partido da ética, afirmando que de ético ele não tem mais nada. E permito-me indagar, para os meus botões, se um dia houve ética no PT… Mas, voltando ao assunto, se a maioria das pessoas com quem tenho conversado – e vejam bem que fazem parte de um universo que pode bem ser considerado como amostra, uma vez que são pessoas de níveis sócio-econômico-culturais bem diferentes – diz-se decepcionada com o Lula e com o PT, como é que pode o fenômeno de as pesquisas estarem apontando a possibilidade – quase certeza – de uma vitória de Lula já no primeiro turno? Será que há algo errado com essas pesquisas, ou será que a metodologia utilizada é tão esdrúxula que aponta justamente o contrário da realidade? Para ser sincero, não quero imaginar que possa haver corrupção até mesmo nisso! Porém, lembrando de que estamos vivendo no Brasil e de que estamos atravessando um período histórico que bem poderia ser chamado de Era da Corrupção, tudo se torna possível. Não pode me passar pela cabeça que indivíduos respeitáveis que me dizem votar em qualquer um menos no Lula, ao chegar a hora da urna, mudem totalmente de opinião. Mas pode-se pensar que se esteja fazendo o jogo do obstetra ladino quando ainda não havia o exame de ultrassom capaz de detectar o sexo do feto: dizia para a mãe que ela estava esperando um menino e, na ficha clínica, marcava menina; se nascesse um menino, ninguém viria fazer qualquer pergunta e ele ainda ficava com fama de profeta; mas se o Destino decidisse que viria uma menina e a mãe aparecesse para reclamar, ele simplesmente diria que ela tinha entendido errado. E mostrava a ficha clínica onde estava escrito menina. A esperança é essa. O brasileiro pesquisado pelo IBOPE, DataFolha, CNT/Sensus, Vox Populi e outros, só pode estar fazendo o jogo do obstetra: diz que vota no Lula, mas na hora H vai marcar outro. E, ao se publicar o resultado oficial da votação, o povo dará uma risadinha marota e apurará os ouvidos para tentar ouvir o canto do Bufo hirsutus ecoando ao longe. Muito ao longe do Paranoá.

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