Wednesday, August 22, 2007

Mudou de nome: a perseguida agora chama-se verdade!

É engraçado… Todos querem a verdade. Refinando: ambos a querem. No entanto, fogem dela. E não é ela que foge de ninguém, podem apostar. São eles. São os dois. Até parece a história do senhor já muito maduro, já pedindo ao médico não mais uma receita de Viagra, mas sim de alguma droga que o faça esquecer, que à noite, no leito conjugal, encontra as mais estapafúrdias desculpas para não cumprir o seu dever. E levanta-se da cama alegando qualquer coisa – até mesmo que escutou um barulho na cozinha ou que esqueceu de dar leite ao gato – só para poder fugir a obrigação. No bar, com seus companheiros e correligionários, arrota vantagens, mostra-se arrogante, diz que com ele não existe essa história de perseguida, mas sim de alcançada. À noite, a coisa muda… Ou então o outro, cheio de delicadezas e mesuras, que ergue um brinde de champanhe francesa e mostra ser capaz, também, de alcançar. Porém, a conquista realizada, não sabe o que fazer com ela.

Contudo, um deixa entender que não vai fazer nada mesmo, uma vez que já provou essa assertiva. Durante quatro anos, nada mais fez do que comer o pão. Infelizmente, o pão amassado pelo outro (ou por seus pares) durante os oito anos antecedentes. E ambos dizem perseguir a verdade. Como falei antes, possivelmente sem nenhuma vontade efetiva de alcançá-la, pois isto feito, terão de dar conta do recado e, nesse ponto, sabem-se incapazes.

Mas, sejamos justos. Dos dois perseguidores, o já tão falado Picolé de Sechium edule, saiu-se bem melhor. Também não sabemos se, lá para o fim do mês, ele vai chegar à perseguida… E muito menos o que vai fazer com ela depois. Já o outro, antes Bufo hirsutus e hoje Bufo apopleticus, deu-se mal. Por muito pouco não virava suflê de sapo com jiló, tão amarga estava sua expressão.

E, uma pergunta: seria mesmo água que ele estava constantemente bebendo? Alguém conseguiu ver algum passarinho bebendo do mesmo copo?

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Nem Sempre Rima é Poesia

O Luis Nassif – grande cronista! – põe-me um sentimento de inveja quando discorre sobre o Rio antigo. Aliás, nem tão antigo assim, pois os meados do século passado não vão tão longe a ponto de justificar o termo. Talvez fosse mais apropriado dizer Rio “velho”, mesmo porque estaríamos falando justamente sobre a época que eu estou neste planeta – e já estou velho.

Essa inveja que diga-se de passagem, é saudável, obriga-me a procurar nos já bastante poeirentos arquivos da memória alguma coisa, algum fato para narrar, unicamente para não permitir que se possa pensar que saudosismo só existe entre os cariocas e que o paulistano – na verdade pouquíssimos hoje em dia, muito mais da metade dos habitantes da Paulicéia Desvairada são oriundos de outras terras nacionais ou estrangeiras – também pode ter tempo de sentir saudade.

Saudade dos litros de leite – de vidro, com tampa de alumínio – nas soleiras das portas da rua Martim Francisco, sempre acompanhados por uma bengala de pão e, muitas vezes, por um jornal que tanto podia ser O Estado de São Paulo como a Folha da Manhã. E ninguém mexia…

Molecote, distraía-me vendo através da janela da sala de aula do Colégio Santo Américo, os Gloster Meteors recém-adquiridos pela FAB que decolavam do Campo de Marte e vinham fazer evoluções sobre nossas cabeças, ali no bairro de Santa Cecília. Velhos jatos, muito mais barulhentos do que eficientes…

Lembro-me, também, dos fins de tarde com as pessoas sentadas à calçada, cadeiras puxadas para fora, transformando a frente de suas casas em sala de estar. E não havia o risco de assaltos, seqüestros ou mesmo de um automóvel subir a guia e atropelar todo mundo.

Pelo menos duas vezes por semana, no verão, ia tomar um sorvete no Rafael, na praça Marechal Deodoro, ouvindo os bandos de pardais procurando poleiro nas árvores.

Nunca houve nenhum tipo de incidente desagradável comigo ou com qualquer um dos nossos colegas, na ida ou na volta à sorveteria. Ninguém foi seqüestrado, assaltado ou molestado. No máximo acontecia um confronto de desafios e xingamentos entre as turmas da rua Baronesa de Itu e a nossa, mais centrada ali na São Vicente de Paula e Gabriel dos Santos. E, por mais ameaças que tivessem acontecido, jamais chegou a acontecer mais do que um empurrão.

Nas eleições de 1959, o rinoceronte “carioca” Cacareco foi feito candidato a vereador e – pasmem! – teve mais votos do que qualquer outro. O partido mais votado não chegou nem perto dos 100.000 votos que o simpático paquiderme conseguiu. E só não tomou posse porque os políticos de plantão na época cuidaram para que, na noite da antevéspera da votação, ele fosse devolvido ao Rio de Janeiro. Tinham medo, creio eu, que Cacareco impusesse suas opiniões à força de seu peso – físico e político – durante as reuniões da Câmara.

E, por falar em Cacareco, deixo meu pensamento voar um pouco e imagino se não seria o momento de buscarmos um outro candidato à altura desse honorável rinoceronte para fazer frente à súcia de abutres que esvoaçam sobre o nosso Brasil, certamente imaginando que por aqui há muita carniça, mas esquecendo-se de que o mau cheiro que sentem – e que os atrai – não é nada mais e nada menos do que a sujeira que eles mesmos por aqui depositaram.

Pensei num gorila, num chimpanzé, talvez num orangotango… Mas logo desisti. Seria uma ofensa muito grande para qualquer um desses honestos primatas.

Talvez um avestruz, que sempre é representado com a cabeça metida num buraco para não enxergar nada e que devora tudo o que vê pela frente, especialmente se for brilhante. Mas não. Também não serve. Atualmente avestruz é comida de rico. Seria muito fácil a “oposição” inventar algum trocadilho indelicado. Para isso, todos eles são excelentes. “Malhar” o adversário é com eles mesmos.

Escarafunchando as já emperradas gavetas cerebrais, chego à conclusão que a primeira associação de idéias é a mais válida: teríamos de encontrar um urubu para ser um candidato que pudesse ter o porte político de Cacareco.
Poríamos nele um nome que, por delicadeza, não rimasse com o “u”.
E que me perdoem os urubus.

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Mais um para ouvir nossas orações

E, talvez por ser um santo fresco, ele possa ter mais acesso ao Todo Poderoso. Mais, por ser um santo tupiniquim, pode ser que entenda melhor nossos problemas e interceda junto à Chefia com os pedidos certos. Como diria Rui Barbosa, “tempestivos, pertinentes e intravagantes”.

Sim, pois os santos a quem estamos acostumados a rezar são europeus em sua maioria e, justamente por isso, a eles não é dado compreender o nosso modo de ver as coisas, a nossa maneira de enxergar o mundo, seus obstáculos e suas exigências. Pode ser, mesmo, que estes santos do Primeiro Mundo, jamais consigam entender que as regras – especialmente aquelas relacionadas com a moral – são completamente diferentes aqui, nesta parte de baixo da Linha do Equador.

Assim, rezemos para Frei Galvão.

Peçamos que ele encaminhe à Direção do Universo um requerimento – obviamente em cinco vias, todas devidamente autenticadas e com firma reconhecida – solicitando que aos nossos homens públicos seja dada a virtude de desviar um pouco os olhos de seus próprios umbigos – nos melhores casos, do umbigo e interesses de seus partidos – e procurem enxergar o povo. Que eles possam perceber que a imensa maioria dos brasileiros vive sem nenhuma perspectiva de um amanhã, vive apenas dia-após-dia, da mão para a boca e tentando sublimar quaisquer preocupações com um futuro, pois este é tão incerto quanto o mar.

Peçamos que aquela fatia de brasileiros encarregados de fazer cumprir a Lei e de manter a Ordem, façam-no com sabedoria, compreensão e – no mínimo – honestidade, para que deixem de acontecer os casos de corrupção da polícia, da administração e até mesmo do judiciário.

Peçamos que os meus ex-coleguinhas – antes vestidos de branco e hoje usando gravatas de fazer inveja a um certo rabino – comecem a lembrar do Juramento de Hipócrates e passem a exercer sua profissão com os olhos e o coração voltados realmente para as necessidades de seus pacientes e não para a saúde de suas contas bancárias. O Sistema de Saúde – e não apenas o Único, que de tão único passou a ser inexistente, mas o sistema como um todo – precisa ser acessível a todos. E com qualidade idêntica para qualquer Silva, seja ele o presidente da república ou o humilde Zé da Silva, gari de uma cidade mínima. Morrer por não poder pagar… Isso também é ser vítima de assassinato.

Peçamos que nossas crianças e nossos jovens possam estudar equanimemente. Quer dizer, em suma, que o ensino seja bom no país inteiro. Que uma escola no interior das Minas Gerais ensine a mesma coisa, da mesma maneira e com a mesma qualidade daquela que se encontra num grande centro.

Peçamos que a polícia – as forças de segurança, de um modo geral – sejam respeitáveis para que possam ser respeitadas. E que deixem de ser motivo de medo tanto quanto o são os bandidos que ela apregoa prender e que, na realidade, não conseguem – ou não querem uma vez que não deve ser muito fácil dar voz de prisão a sócios.
Peçamos que nossos capitães-de-indústria – e o povo todo – abram os olhos para uma consciência mais ecológica, que pensem e admitam que o progresso tem de vir, no mínimo a partir de agora, antes que seja tarde demais, com a utilização de energia limpa e fontes energéticas sustentáveis. Não é possível deixar acontecer o Inferno de Dante ou o Apocalipse simplesmente por ambição desmedida e por falta de visão em relação ao futuro. Em resumo, por mero egoísmo das gerações atuais. Temos de ganhar dinheiro e, se para isso for preciso destruir o mundo, não estaremos mais aí para presenciar o resultado de nossos atos.

Peçamos que o nosso povo tenha mais discernimento na hora de votar, aprendendo a distinguir os bons dos maus, aprendendo a separar o joio do trigo. Principalmente aprendendo a ver as diferenças entre um sapo, uma raposa e um Homem. Assim mesmo, com “H” maiúsculo.

E, por fim, o mais difícil…

Peçamos que o Gerente Supremo capriche um pouco mais na escolha de seus representantes para esta dimensão e não deixe que prossiga a invasão do clero por homossexuais, pederastas, mercenários e indivíduos que conseguem reunir todos – se não a maioria dos – defeitos de fabricação que a Indústria Criativista pôde fabricar.
E, justamente por ser um santo brasileiro, peçamos a ele que, se necessário, faça uso dos artifícios que esta Terra de Cabral tão bem conseguiu desenvolver no correr dos últimos cinco séculos: uma propinazinha pode acelerar as coisas, pode apressar as decisões, especialmente se o sistema judiciário dessa outra dimensão em que ele se encontra seja semelhante à nossa, aqui do Planalto, em que os requerimentos e processos só andam se impulsionados a dólares…

Rezemos, portanto a Frei Galvão… Façamos promessas…

Promessas? Mas será que a promessa a um santo não é uma forma de propina? “Se eu ganhar na Mega-Sena, dou 20% do prêmio para a Igreja…” Isso é propina, minha gente!

Então… Os santos também usam esse sisteminha… Trabalham se impulsionados a promessas.

Mormente em se tratando de um santo tupiniquim.

Mas, a esperança é sempre a última que morre. E enquanto ela estiver agonizando, vamos rezar e fazer promessas.

Depois de ler isso, os prezados e horrorizados amigos poderão pensar que eu me tornei agnóstico. No mínimo, ateu.

Mas não é bem assim.

Pelo menos, quero acreditar num Deus. Um Deus que, como reza a Bíblia Sagrada, é Boníssimo e Justíssimo – destarte não permitindo as desigualdades que grassam neste mundo. Que seja Onisciente e Onipotente – assim, conhecendo as necessidades de Seus filhos e impedindo que estas se transformem em desculpas para a violência e a miséria espiritual. Que saiba escolher Seus ministros e impeça que crianças inocentes e pessoas adultas mal orientadas sejam vítimas de estupros, molestamentos e outros constrangimentos que, de uma forma ou de outra acabarão por deixar marcas nessas pobres almas. Que diga a Seus ministros mais destacados – especialmente a “Herr Hatzinger” que é preciso pensar no progresso da humanidade, na evolução da ciência e, sobretudo, na evolução dos costumes. E que é preciso a Igreja ser coerente: não faz sentido pregar a igualdade, ela mesma fazendo valer tanta desigualdade, fazendo e mostrando a quem quiser ver distinções hierárquicas e materiais que, mais uma vez no mínimo, levam ao descrédito de suas próprias pregações.

E, para aqueles que me conheceram em outros tempos, digo, repito e sublinho: não me tornei comunista, nem mesmo socialista.

Apenas, com o passar dos anos, fui me tornando mais cético. E, talvez, mais sonhador.

Justamente por isso, e apesar de tudo, ainda sonho com a possibilidade de Frei Galvão realmente interceder por este nosso pobre e desamparado Brasil.

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O Hatzinger que ruge

E vamos aplaudir a teimosia! Aliás, a teimosia é uma atitude bastante esperada nas crianças e adolescentes que, justamente pela ainda pouca vivência, não são capazes de aceitar que há alguma coisa estranha quando todo um batalhão está marchando errado, com exceção de apenas um soldado.

Herr Hatzinger parece ser esse soldado e toda a cúpula do Vaticano está fazendo o papel da mãe do reco que, orgulhosa, diz: Vejam! Todos estão marchando errado, menos o meu filho!

O nosso Papa conseguiu recriar motivos para uma – agora sim, verdadeira – jihad. Não há no planeta um só islamita que não tenha se sentido profundamente ofendido por aquele seu desastrado pronunciamento em Regensburg. E é evidente que sinceros e justificáveis sentimentos de raiva e vingança emergiram fazendo com que o clamor inicial acabasse por se transformar em atos de violência.

Porém, nos dias de hoje, uma guerra santa não é movida apenas por conceitos religiosos, mas também por motivações políticas e econômicas que, justamente por estarmos no Século XXI, acabam por pesar mais nas ações e reações advindas de um incidente que, no frigir dos ovos, não deixa de ser uma excelente desculpa para acender o estopim.

Herr Hatzinger fez a besteira. Como uma criança, que fala sem pensar. Não contente, persistiu na burrice e está teimando em não se desculpar. Como um adolescente que não quer reconhecer o erro.

O resultado está aí: movimentação em torno das armas, todos prontos para usá-las contra o catolicismo.

Só contra o catolicismo? Só contra o Vaticano?

Não. As bandeiras queimadas em Basra não foram apenas as do Papa, mas também as de Israel – que nada tem a ver com Herr Hatzinger – e dos USA – cuja maioria populacional não é católica.

A guerra santa eclodirá entre o Oriente Médio – leia-se islamismo – contra o Ocidente, independentemente das religiões abraçadas.

As ameaças de ataques terroristas contra o Vaticano têm uma conotação diferente. Parece que ouvimos os líderes islâmicos – na verdade líderes políticos que seguem o Islã, ou dizem que seguem – falando: Vamos atacar o Vaticano para provocar a reação dos americanos.

Será que Herr Hatzinger não imaginava que aquele seu pronunciamento haveria de detonar uma reação desse porte por parte dos islamitas? Ou será que ele apenas quis testar o quanto de costas quentes ele tem?

Seria bom que algum desses cardeais que vivem no meio do luxo e intelectualidade do Vaticano soprasse no ouvido do Papa que o orgulho por não querer reconhecer o erro – e conseqüentemente, pedir desculpas – pode levar a conseqüências muito mais sérias até mesmo do que foi o 11 de Setembro. E, em algum momento desse conselho, tentar injetar na mente do Herdeiro de São Pedro, a idéia de que o rato, para rugir, tem de no mínimo estar bem defendido pelo leão. Aliás, pelo verdadeiro leão.

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O atraso que vem de cima ou O Regresso para a Idade Média

A Atlantis teve êxito em sua missão. Pelo menos, até o presente momento, tudo está correndo bem lá em cima, fora a perda de um parafuso, uma porca e uma mola. Segundo consta, a porca sumiu no espaço, sem causar maiores preocupações momentâneas. Já o parafuso e a molinha, por terem escorregado pela fuselagem da nave, deixam uma ponta de medo de que eles penetrem em algum lugar indevido e venha a prejudicar fios e tubos…

Mas acho que tudo vai dar certo. Afinal, não é a primeira vez que o homem tenta colocar um parafuso, este não entra, cai e simplesmente desaparece. E o carro continua funcionando normalmente. Esperemos que o mesmo princípio se aplique a uma nave espacial.

Contudo, trapalhadas à parte, é inegável o valor científico do feito. Ir ao espaço, passear entre os corpos celestes, deixar a prisão da gravidade… Ninguém poderia sequer imaginar isso sete séculos atrás.

Aliás, até mesmo bem depois disso, até que terminasse o horror da Inquisição, perigava alguém que ousasse pensar nessas loucuras ir para a fogueira. Hoje, quem não acredita que isso seja possível é que se torna queimado entre seus amigos, conhecidos e até mesmo parentes.

O mundo evolui, o que vale dizer que o homem evolui.

A todo instante estamos vendo o progresso da Ciência, os novos medicamentos customizados de acordo com o DNA do paciente, as novas técnicas de cura que implicam na utilização de células muito jovens (não quis dizer células-tronco justamente para não despertar a polêmica antes da hora).

E, ao lado disso, o que vemos, também?

Vemos a Igreja Católica posicionar-se contra a utilização de embriões inviáveis – mas não tão inviáveis que não pudessem produzir as tais células jovens imprescindíveis para o tratamento de tantas pessoas e que, até poucos anos atrás não tinham mais esperanças de poderem continuar vivas. Vemos nosso Papa, Herr Hatzinger, dizer que a teoria do evolucionismo é irracional… Vemos todos os padrecos, padres, cônegos, bispos, arcebispos, cardeais e o próprio Papa queixarem-se da formidável diminuição das vocações religiosas. Mas, o que não se mostra à mídia, é que a própria Igreja Católica cria os mais inacreditáveis entraves para quem quer manter uma mínima que seja chama de religiosidade.

Por exemplo, há seis meses quero batizar minha neta, e não consigo. O padre exige que os padrinhos façam um curso de padrinhos e – o que definitivamente inviabiliza qualquer tentativa de batizá-la – seus pais, meu filho e minha nora, não são casados na Igreja.

Conclusão: Caroline provavelmente será ovelha de outro rebanho, uma vez que este pastoreio a recusou, e o resto da família correrá o risco de extraviar-se e passar a seguir um outro pastor que proporcione pastos mais fáceis de digerir e água sem tantos lobos por perto.

Não tivéssemos sido criados em regime estritamente católico, minha mulher e eu, com certeza teríamos aceitado o oferecimento de um nosso conhecido, umbandista, que garantiu não ser preciso nenhuma frescura para batizar a menina num terreiro de candomblé…

Voltando ao nosso Herr Hatzinger, fico imaginando se ele alguma vez já pensou por sua própria cabeça, deixando de lado os mofados livros em latim escritos até antes da Idade Média e os velhos grimoires cheios de fórmulas e de orações que os padres da Idade das Trevas escreviam – e escondiam deles mesmos.

Não posso acreditar que um homem – sim, pois não deixa de ser um homem, tanto assim que nasceu e há de morrer – como Herr Hatzinger, vivendo em pleno século XXI e com a obrigação de fazer uma aproximação da Igreja com a Modernidade, possa continuar a pensar que Darwin nada mais era do que um herege pecador e que a vida na Terra surgiu pura e simplesmente de um sopro de Deus. Assim, sem mais nada, sem a menos interferência do movimento browniano de moléculas, sem nenhuma obrigação de adaptação para a sobrevivência. Se isso fosse verdade inconteste, onde estarão os dinossauros vivos nos dias de hoje? E os mamutes? Por que eles perderam o pêlo, diminuíram as presas e alargaram as patas? Por que, enfim, transformaram-se em simples e simpáticos elefantes?

Não estaria aí uma prova da validade do evolucionismo?

E não haveria uma certa analogia do pensamento de Herr Hatzinger com o de um seu outro execrável conterrâneo, Herr Adolf, no que concerne a uma tendência de purificação, não étnica, mas sim religiosa? Por que o nosso Papa há de colocar o Deus dos Muçulmanos num plano inferior, ou seja, por que ele haveria de desdeificar Alá, se Alá é nada mais e nada menos que o nosso Deus para os muçulmanos? Teremos de todos os componentes da humanidade sermos filiados ao mesmo partido religioso? E onde está o privilégio – aliás dado pelo próprio Deus, embora não haja certidão do Céu com firma reconhecida, como bem queria o Poetinha – do livre arbítrio? Então Abdallah tem de adorar o Deus dos católicos porque aquele que lhe foi incutido desde as mais priscas eras simplesmente não vale?

E, para finalizar, Herr Hatzinger condena veementemente as guerras santas. Concordo. Toda e qualquer guerra deve ser condenável. Mas ele posicionar-se como se o catolicismo jamais tivesse partilhado dessa tendência, é um absurdo histórico. Então as Cruzadas – devidamente abençoadas pelos Papas de plantão – não foram guerras santas?

E quando Herr Hatzinger diz que o caminho para Deus jamais passa pela violência, como fazem os muçulmanos que impõem à custa de armas a fé no Corão, está esquecendo que a Igreja Católica fez igual, se não pior ainda, na época da Inquisição, quando obrigava judeus a negarem sua fé e – até mesmo mudando seus nomes – abraçarem o catolicismo. Sob pena de fogueira, se acaso se recusassem.

Na Homilia da Missa que oficiou em Regensburg, Alemanha, Herr Hatzinger condenou o fanatismo. Também concordo. Todo e qualquer fanatismo, especialmente o religioso, tem de ser condenado. Mas nosso Papa nada disse sobre a Opus Dei… E olhem que ela é apenas uma migalha de fanatismo dentro da Religião Católica.

Mas vamos deixar essa história da Opus Dei para uma outra ocasião, caso contrário vamos ficar escrevendo horas a fio…

Por enquanto, por hoje, apenas vale deixar aqui registrada a minha decepção com relação ao mais alto dignitário do Catolicismo, aquele que é o representante de Deus na Terra e o ocupante do Trono de São Pedro: não dá para entender por que não se pensa em evolução, dentro do Vaticano.

E, se não para evoluir, então o Vaticano deveria ser iluminado à luz de velas, usar tambores e pombos-correio no lugar de telefones e internet, andar de jegue em vez de usar um papamóvel e, por fim, jamais por os pés dentro de um avião – afinal se Deus quisesse que os homens voassem, ter-lhes-ia dado asas.

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Vaidade Mórbida

Há semanas venho estudando alguma coisa para poder desenvolver meu próximo romance. A história toda deverá girar em torno da vaidade. Sim, o tema será exatamente este: vaidade esta vista por diversos e diferentes ângulos, sob seus múltiplos aspectos. A idéia é tentar mostrar que essa característica do ser humano, na realidade, é apenas mais um foco de conflito – ou seja, de infelicidade e de angústia.

E, de repente, leio a notícia sobre a bela modelo de 21 anos – meu Deus, que criança, ainda! – Carolina Reston Macan. A menina morreu, vítima de falência múltipla dos órgãos causada por uma deficiência global de nutrientes e, conseqüentemente, da resistência orgânica. Resumindo: morreu de fome.

Obviamente, a causa mortis seria essa: falência múltipla dos órgãos. Pelo menos é o que o legista – ou patologista – deve ter marcado em seu atestado de óbito. Mas a causa-base, o verdadeiro motivo de Carolina ter tão cedo deixado o convívio de seus parentes, amigos, admiradores e quantos mais tiveram o privilégio de vê-la, ainda que apenas em fotografias, não é outra senão a vaidade.

No caso, uma vaidade mórbida, que a levou a sacrificar de forma ultra-radical um dos prazeres da vida: o ato de comer. Simplesmente, a moça passou fome – voluntariamente – até morrer.

Porém, não a podemos culpar. A vaidade mórbida é uma doença e, como tal, teria de ter sido tratada.

A culpa seria, então de todos aqueles que a viram definhar e nada fizeram? Creio que também não. A culpa, a verdadeira culpada é a vaidade. Não a vaidade da própria Carolina – esta era um quadro psicopatológico – mas sim a vaidade de uma sociedade consumista como um todo, que não se satisfaz jamais e que obriga, que leva pessoas como essa modelo a prescindir de sua saúde – tanto física como psíquica – até chegar ao extremo da morte.

Certos estiveram os espanhóis que proibiram modelos excessivamente magras de desfilar. Se isso “pega”, teríamos uma forma – ainda que débil – de impedir que tantas jovens cheias de vida e de sonhos acabassem doentes.

Desta vez, no caso da pobre Carolina, a mídia se manifestou pelo menos um pouco mais do que de outras vezes. Tantas vezes, tantas mortes…

Talvez a sociedade consumista abra os olhos. Talvez deixe de dar tanta importância à vaidade e passe a dar um pouco mais de importância à vida.

Talvez deixe de consumir muitas jovens.

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Considerações sobre a Amizade

Um dia, um discípulo perguntou a Budha: “Mestre, o que é a Amizade?” Budha sorriu docemente e respondeu: “Nada mais do que uma bengala forte e segura”.

O discípulo, depois de muitas semanas de meditação, voltou à presença do Mestre e indagou: “Como se pode comparar a Amizade com uma simples bengala? Com um pedaço de pau?”

Budha levou o discípulo até a margem de um rio e mostrou-lhe a neblina baixa que impedia de enxergar o outro lado e falou: “Imagine que você tem de atravessar este rio e que a neblina não lhe permite ver além de uns poucos passos à sua frente. A trilha de pedras, que é o único caminho para o outro lado, é formada por rochas lisas, redondas e parcialmente cobertas pela água. É uma trilha muito perigosa… Uma queda, um escorregão, e não haverá como se salvar. O que é que você faz”?

Novamente o discípulo se recolheu para meditar sobre as palavras de seu Mestre e, depois de outras tantas semanas, voltou para dizer: “Eu faria uso de uma bengala, meu Mestre. Seria esse o sentido da Amizade?”

E Budha respondeu: “Sim. É esse o sentido da Amizade. Uma bengala, um apoio que será o seu auxílio para atravessar o Rio da Vida sem ter receio de escorregar em cada uma de suas etapas. A bengala é como a Amizade, firme, segura, eficiente, capaz de sustentar o seu peso num momento difícil, numa passagem que somente as suas pernas não seriam capazes de agüentar, mas com o apoio da bengala, você cria novas forças, você adquire uma nova energia e se torna capaz de vencer o obstáculo. E é por isso que a Amizade, como a bengala, tem de ser firme e forte. Ela precisa agüentar todo o seu peso, às vezes. E é também pelo mesmo motivo que a Amizade, como a bengala, deverá ser bem cuidada. Para que nunca se deteriore, para que não apodreça e se torne, de repente, frágil e quebradiça. Uma amizade é algo vivo, algo que necessita de cuidados para não morrer”.

O discípulo recolheu-se novamente por mais algumas semanas. Finalmente, ao tornar a aparecer diante do Mestre, falou: “Mestre, sendo a Amizade o ponto de apoio dos homens, quando todos se encostarem uns aos outros, todos se apoiarem mutuamente, então, nesse dia, não haverá mais nenhum que venha a cair nas águas do Rio da Vida… Não é assim?”

Budha não respondeu. Limitou-se a olhar para a frente, os olhos perdidos no infinito de suas meditações.

Talvez estivesse lamentando o fato de saber que isso jamais viria a acontecer.

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Padre João Barca

Creio que todos os bares e restaurantes que beiram as rodovias são semelhantes. Com exceção dos grandes postos de reabastecimento que, pertencentes a poderosos grupos financeiros, já adquiriram um aspecto desenvolvimentista de primeiro mundo, todos os outros são igualmente infectos, mal-cheirosos e mal-frequentados. Entrecruzam-se nesses lugares, numa intimidade promíscua, caminhoneiros, mulheres fáceis do mais baixo padrão, bandidos de todos os calibres, malandros os mais diversos, andantes e peregrinos famintos, ciganos e, eventualmente, pessoas que não pertencem a esse tipo de mundo.

Como eu, por exemplo. E aquele homem sentado duas mesas adiante da minha.

Eu o reconheci imediatamente e não conseguia perceber o que ele poderia estar fazendo ali, perto de Imperatriz, tão longe de sua casa, de sua paróquia, vestido como um “carga-pesada”, usando calções surrados, sandálias-de-dedo e camiseta sem mangas. A barba de vários dias ajudava bem a mostrar que, há muito, ele estava precisando de um bom banho de bucha, com fartura de água e sabão.

Em dado momento levantou os olhos do prato que devorava e fixou-os em mim.

Rápido, tornou a baixar a cabeça e, com mais fúria, meteu uma valente garfada de arroz com feijão em sua boca.
Não conseguiu porém, disfarçar um certo mal-estar, uma certa perturbação.
Reconhecera-me também e, ao perceber que eu já o tinha visto, sentiu-se mal, como se fosse um peixe fora d’água.

Impossível continuar a fingir, mesmo por que eu já me levantava e me dirigia para sua mesa.

Sorriu um sorriso amarelo ao me estender a mão, ao me ouvir dizer:

- Mas que surpresa, Padre João! Quem haveria de imaginar que nós nos encontraríamos aqui…!

Havia mais de cinco anos que eu não o via e nem dele tinha notícias. Soubera, por amigos comuns, que ele se desentendera como nunca com o seu bispo e que se mudara, possivelmente transferido, para algum lugarejo no interior de Goiás. Detalhes, não os sabiam aqueles meus conhecidos, e nem eu me dei o trabalho de procurar saber. Apenas, lá no último arquivo de minha memória, um lampejo de preocupação passara, perguntando, muito egoisticamente:

- E agora? Quando formos caçar marrecas, como nos arranjaremos com o bote? E com o alojamento?

Mas, fora apenas um lampejo, piscar fugaz da manifestação de um egoísmo até que bastante humano mas que, nem por isso, me impede de, às vezes, me envergonhar ao perceber que também faço parte da imensa massa, que também sou um humano sujeito a vícios, a atitudes que manifestam muito pequena caridade e menor ainda fraternidade.

Contudo, nesse caso, perdôo-me: já que, por circunstâncias várias, seria muito difícil voltar àquela cidade para caçar (por exemplo, a falta de tempo, a caça rigorosamente proibida, a turma de amigos já dispersa), não havia motivos bastantes para que eu me preocupasse com o Padre João, personagem que desde há cinco anos, já pertencia ao meu passado.

Era uma figura interessante, esse pároco de interior.

Quando lá estivemos, pela primeira vez, teria pouco menos de trinta e cinco anos de idade, estava no auge do entusiasmo, forte e atlético, sempre bem disposto e alegre.

- Conheço um lugar excelente para marrecas. Amanhã, bem cedinho, vamos lá com minha barca e garanto que vocês vão fazer uma ótima caçada.

Tinha razão, o padre.

Ainda escuro, bem antes da Missa, saímos, o padre levando uma velha espingarda calibre doze que, durante a caçada, mostrou ser muito boa e, melhor ainda, quem a manejava.

Bem treinado, esse ministro de Deus!

Não perdeu um só tiro!

- Agora, como pagamento pelo aluguel da barca e como recompensa por eu lhes ter ensinado um lugar de tão boa caçada, vocês irão à Missa.

E nós fomos…

A história se repetiu por todas as muitas vezes que lá estivemos e, devo dizer, jamais nos arrependemos.

Nem de lá ir e, muito menos, dos nossos pecados, na hora do Confiteor, que o padre nos fazia rezar ainda em Latim, alegando que era raro ter alguém suficientemente instruído por lá, para ao menos ler a oração no Missal, sem assassiná-la e sem fazer Cícero dar voltas onde quer que seu cadáver se encontre hoje.

Chegávamos à cidade durante a tarde de sábado e íamos diretamente para a Casa Paroquial onde Dona Elizabete, uma senhora já de seus cinquenta anos, preparava-nos um quarto e um ótimo jantar, bem à mineira, do jeitinho que a gente gosta até hoje: arroz tão soltinho que não se podia falar alto perto dele, feijão macio e bem temperado, carne de porco frita e, vez por outra, uma galinha ao molho pardo ou uma carne assada de fazer babar. De sobremesa, nunca faltava um doce caseiro, fosse de abóbora, de mamão, de cidra, de goiaba ou de banana, sempre bem acompanhado por um queijo meia-cura de se tirar o chapéu e de fazer qualquer um sair do sério.

O padre vinha jantar conosco, fumar um cigarro e beber uma cachacinha - diga-se muito de passagem que Padre João Barca era um excelente copo - que, vinda de Itamogy especialmente para ele, descia pela garganta, redonda e suave, parecendo até estar sendo acompanhada pelos cânticos celestiais dos anjos da igrejinha barroca onde ele, Padre João, rezava suas missas.

Brincávamos com ele:

- Você troca o vinho de missa por essa pinga, é ou não é, padre safado?

- A pinga, quando boa - dizia ele - é também uma dádiva de Deus e, por isso, deve ser reverenciada como tal!

E, entornando mais um copo goela abaixo, completava:

- É pena que o Demônio tenha tomado para si o controle de seus efeitos…

No dia seguinte, madrugada ainda, o padre nos chamava, íamos à caça.

Depois, enquanto Dona Elizabete limpava os marrecos e os salgava para que pudessem enfrentar a viagem de volta, nós íamos à Missa, rezar com expressão compungida o Confiteor, e rir quando o padre, a missa terminada, nos dizia, à porta da sacristia:

- Não agüento ver a cara que fazem, na hora da oração! Quem os vê imaginam que, de fato, estão arrependidos de seus pecados!

Rindo, completava:

- Mas eu sei que não se arrependem… E sei que vão continuar a pecar como sempre!

Pudera…

No meu caso, por exemplo, não era possível me arrepender de um certo pecado que vinha cometendo regularmente, havia já quase dois anos…

Mas, isto é uma outra história.

Na última vez que lá estivemos, a boa Elizabete estava doente e, para substituí-la e nos ajudar, enviou sua sobrinha, a Lurdes.

Moça desempenada e alegre, de cabelos compridos e louros como o ouro, ela se saiu muito bem ao preparar o jantar e limpar a caça.

Elogiada, agradeceu e disse:

- Ora… O trabalho de casa me agrada muito mais do que as aulas de Português que sou obrigada a dar aqui no ginásio.

Depois dessa vez, não mais voltamos, não mais encontrei o padre João Barca.

E, para meu espanto e surpresa, vinha revê-lo ali, naquele restaurante infecto, perto de Imperatriz.

- Está de férias? - perguntei enquanto ele punha na boca um naco de bife que mais parecia um pedaço de sola de sapato velho.

- Não, não… Estou trabalhando - respondeu ele, em tom evasivo.
Trabalhando? Como assim? Teria sido possível que eu me tivesse enganado e que estivesse falando a um desconhecido?

A expressão de surpresa, espanto e dúvida que se estampou em meu rosto fez com que ele se abrisse num sorriso e dissesse:

- Sou eu mesmo, doutor… Você não se enganou, não.

E, com os olhos baixos, a fala triste, acrescentou:

- Mas acho que mudei tanto, mas tanto, que nem mesmo Deus seria capaz de me reconhecer!

Desviei os olhos para disfarçar o mal-estar que sentia e vi que um gorila sentado à mesa ao lado bebia uma pinga com tanta satisfação que me deu vontade de tomar uma, também.

- Vamos uma branquinha? - convidei.

Viramos nossos copos com a careta convencional e o padre comentou:

- Que diferença daquela cachacinha envelhecida de Itamogy, não é mesmo?

- Pois é… - respondi, distante.

Mesmo assim, pedimos mais duas e ficamos alguns momentos olhando um para o outro, naquela situação desagradável de quem quer perguntar mas não tem coragem e de quem quer contar mas não tem ânimo, tem é muita vergonha.

Finalmente, o padre quebrou o silêncio:

- Você se lembra da Lurdes, a sobrinha de Dona Elizabete?

Evidentemente que eu me lembrava e, no momento em que ele dissera aquela frase, já pude adivinhar todo o resto.

Aceitando um cigarro que eu lhe ofereci, o padre contou sua história.

Dona Elizabete não tinha mais disposição e nem saúde para trabalhar e, assim, Lurdes foi ficando. Durante as duas primeiras semanas, nada ocorreu de anormal mas, com o passar dos dias, o padre começou a reparar que não tinha mais as meias furadas, que os botões de suas camisas não estavam mais faltando e que uma incontável quantidade de pequenas coisas que o aborreciam no serviço doméstico, não mais aconteciam.

Enfim, notou que sua vida tinha melhorado, e muito.

Também a Casa Paroquial tinha ficado diferente. Até então, mais parecida com uma pensão ordinária, ela começava a adquirir jeito de lar.

Não raro, quando precisava assistir algum moribundo altas horas da noite, surpreendia-se ao encontrar Lurdes a esperá-lo, com farta quantidade de bolinhos e café fresco.

Éclaro que ele lhe dissera, várias vezes aliás, que não se preocupasse, que não era necessário, que afinal de contas ele estava habituado a voltar tarde para casa e ir dormir sem comer nada.

- Ora, padre… Não me custa nada. Além disso, acho que o senhor merece. Vive aqui tão sozinho…

Padre João não percebeu, no início.

Foi preciso que um dia, uma tarde de sábado, um político da cidade, seu amigo, lhe dissesse:

- O que é que há, padre? O senhor não aparece mais em lugar nenhum, não vai mais à casa dos amigos… Outro dia, até deu uma desculpa esfarrapada para não ir jantar em casa do prefeito!

E, sarcástico, acrescentou:

- Até parece homem casadinho de novo…

Padre João percebeu a indireta.

Porém, não ligou.

Tinha a consciência perfeitamente tranquila e, de mais a mais, tinha descoberto como era gostosa a vida em sua casa.

Comentou com Lurdes:

- Você transformou esta casa, menina!

Ela sorriu, fez um trejeito dengoso e respondeu:

- Até mesmo a casa de um homem sozinho precisa das mãos de uma mulher…
Duas semanas depois, Lurdes precisou ir para a Capital, tinha de resolver alguns problemas com a sua licenciatura de professora.

Padre João Barca acompanhou-a até a estação rodoviária, carregou sua mala e…
Voltou para casa sozinho.

Àforça de começar a encarar esse fato, o de que sempre vivera sozinho, Padre João Barca se compenetrou que a vida de um pároco de interior é absolutamente solitária.

De repente, ele sentiu a solidão.

Era um vazio intruso, um frio no estômago como se lá, em vez de vísceras, houvesse um vácuo, uma estranha e desesperadora sensação de estar, constantemente, precisando de alguma coisa…

Ou de alguém.

Sentiu-se deprimido, não mais encontrava a paz em suas orações, muito pelo contrário: começava a se revoltar contra a opção que fizera há dez ou doze anos, ainda no seminário.

- Maldito celibato clerical!

Toda essa sensação de vazio, essa angústia e ansiedade, desapareceram quando, uma semana depois, ao chegar da visita que fazia semanalmente ao asilo de velhos, encontrou Lurdes na Casa Paroquial com um bonito bolo de fubá, à sua espera.

A partir daí, a mudança que começava a se operar em seu comportamento, se acentuou.
Arranjava toda e qualquer desculpa para não sair de casa pois sabia que lá teria a companhia de Lurdes, sempre tão agradável e dedicada. Começou a se sentir mal quando ela ia dar suas aulas e ficava pior ainda quando, à noite, ela lhe dizia:

- Até amanhã Padre João! - e saía porta afora, balançando ao vento os seus cabelos louros.

Não foi preciso muito tempo mais para que ele descobrisse que estava apaixonado.

Perdidamente apaixonado.

Decidiu se mortificar, jejuar, sair para um retiro terrível na Capital.

Tudo inútil.

As mortificações (comer só nas horas certas), iam por água abaixo com os bolinhos que Lurdes lhe preparava às três horas da tarde e por volta de dez horas da noite, quando ela voltava do ginásio. O jejum, não conseguiu fazê-lo pois Lurdes passara a manhã inteira preparando um pernil que…!

Já o retiro na Capital, foi um desastre completo.

Não conseguiu nem mesmo chegar a São Bento do Sapucaí.

Voltou pela primeira condução, pretextando uma indisposição qualquer.

Ah, que mentira gostosa!

A moça o pôs de cama, fez-lhe chás, dispensou as visitas importunas, cobriu-o de atenções.
O padre, coitado, em vez de melhorar de um mal que não existia, piorou de outro, de um câncer da alma que já o vinha corroendo aos poucos.

Tentou rezar mas sentiu tanta hipocrisia no que murmurava que, horrorizado, desistiu.

Uma tarde, um desses fins de tarde de novembro em que a luz do sol parece mais bonita fazendo as cores ficarem mais vivas, Padre João estava sentado na varanda da Casa Paroquial.

Àsua frente, estendia-se o vale, enorme extensão de terras férteis, cheia de fazendas prósperas. Conhecia muito bem cada um desses proprietários, seus filhos, suas esposas, seus pecados.

Sabia que, apesar de todas as intempéries e oscilações, às vezes até mesmo violentas, a que está sujeita a vida dos agricultores, todos eles eram felizes.

Sim…

De um modo ou de outro, eram felizes e, principalmente, felizes em suas casas.

Todos eles tinham um denominador comum, todos eles se assemelhavam em sua felicidade doméstica: possuiam um lar, filhos, crianças brincando no terreiro, esposas cozinhando em seus fogões.

Esposas…

Balançou a cabeça tentando afastar da mente a idéia que começava a se formar e tornou a olhar para o vale.

Ali, por exemplo, a casa mais próxima, a fazenda do Demétrio.

De sua varanda, o padre via perfeitamente a fumacinha azulada subindo da chaminé, na tarde sem vento. Imaginava o fazendeiro que, àquela hora, já teria chegado do trabalho, tomado seu banho e, de chinelos nos pés, estaria na cozinha brincando com o filho caçula e comentando com a mulher os afazeres do dia.

Que bela cena!

E lá, então…

Mais ao longe, a casa do Quinzão…

Já mais idoso, o casal estaria sentado na sala, ela tricotando alguma coisa para os netos e ele, conversando com os filhos e genros sobre o serviço da fazenda…

Assim, todos os outros, sem nenhuma exceção.

Era o fim do dia, a hora em que o homem sente que tem um lar, que tem uma família e que não está sozinho.

Sozinho!

Palavra dura!

Condição terrível!

O sol já se avermelhava, fazendo com que todas as coisas adquirissem um tom escarlate.

Padre João, pensativo, macambúzio, nem percebia direito que a noite chegava.

Porque só ele não podia ter, também, um lar normal? Porque só a ele não era dado o direito de ser feliz? Dentro do ensimesmamento que ultimamente vinha tomando conta de sua alma, não havia mais lugar para o sacerdócio. Vocação, se um dia tivera realmente, já não mais existia. Convencera-se de que havia cometido um erro incomensurável ao escolher essa carreira de sacrifícios e privações.

Afinal de contas, ele era homem, ora bolas!

E um homem normal, como qualquer outro! Também tinha o direito de ser feliz!

No entanto, ali estava ele, só, isolado, ilhado naquela cidade, impossibilitado de mudar o ritmo dos acontecimentos.

Lurdes veio lhe trazer o café e, ao apanhá-lo, suas mãos se tocaram.

Foi um toque breve, em qualquer outra circunstância teria sido absolutamente inconseqüente, teria até passado desapercebido.

Mas, naquele momento, os olhos dos dois se cruzaram e se disseram mutuamente alguma coisa, transmitiram-se uma mensagem cúmplice que, mesmo em silêncio, ambos puderam ouvir.

Lurdes foi embora mais cedo essa noite e deixou o padre de olhos acesos até o amanhecer, pensando, cismando, olhando para o teto de seu quarto sem ver e sem perceber coisa nenhuma.

No dia seguinte, a moça lhe pareceu diferente. Mostrava-se arredia, arisca, encabulada…

Também ele, não estava normal. Chegou até a confundir as páginas do missal e rezou a missa de uma semana atrás. Por sorte, a dúzia e meia de beatas que estavam na igreja - aliás como todos os dias - iam ali maquinalmente e nem mesmo chegaram a perceber o ocorrido. Na verdade, ele próprio só descobrira o erro quando terminada a cerimônia, vira que estivera o tempo todo em lugar errado, no missal. Em tempos outros, ele teria ficado perturbado com o fato mas, naquele momento…

Não via mais qualquer importância em tudo aquilo.

Àtardinha, a cena do café se repetiu. Só que, desta vez, o toque entre seus dedos e os de Lurdes foi provocado, se tornou um pouco mais demorado e os olhos de ambos se confessaram haver qualquer coisa além do relacionamento simples e puro que deve haver entre um padre e uma mulher.

Os olhos de Padre João tinham o brilho dos olhos de um macho em busca e os dela, a candura e a meiguice da fêmea que aceita…

Com isso, mais uma noite em claro.

Porém, nessa noite, Padre João sentiu-se mais objetivo. Pensou muito e, ao clarear o dia, tomou uma decisão: deixaria a batina, uma vez que perdera a vocação. Não soubera sublimar um sentimento, não deveria mais ser um sacerdote.

- Não morrerei de fome. Posso muito bem dar aulas.

Nesse dia, nem missa rezou. Nem mesmo esperou Lurdes chegar.

O calor do sol veio encontrá-lo já muito longe de sua paróquia.

Homem de princípios, não queria abandonar tudo sem se explicar com seu bispo, sem ao menos tentar se justificar. No fundo, talvez levasse uma esperança de que o prelado da diocese lhe perdoasse a fraqueza, lhe desejasse uma melhor sorte.

Na Cúria, soube que o bispo estava em retiro e que só poderia recebê-lo dentro de uma semana.

Resolveu aproveitar o tempo para procurar o que fazer no futuro, no campo do magistério, lá mesmo numa cidade maior, mais progressista.

Para seu desespero, não estava nem um pouco fácil encontrar emprego. As vagas para professor de Português estavam todas preenchidas e parecia não haver a menor possibilidade. O mesmo se dava com História, e Geografia.

Encontrou uma vaga para dar aulas de Religião mas, não aceitou. Não se achava digno para a empreitada.

Telefonou para Lurdes, contou-lhe que ia abandonar a batina, não lhe deu mais detalhes.

Ouviu-a dizer:

- Nesse caso, nada mais me prende aqui… Vou para Campos do Jordão, para a casa de Tia Renata.

A reunião com o bispo foi um verdadeiro desastre. O velho e arcaico prelado, incapaz de aceitar essa fraqueza de um sacerdote, desacatou-o, gritou com ele, ameaçou-o com o fogo do inferno e todas essas coisas que se usam para assustar as crianças mal-comportadas.

Padre João saiu da Cúria desnorteado, ciente de que havia se perdido para Deus e para todos.
Tirou a batina, comprou uma roupa comum e…

* * * *

- Fiquei completamente desorientado - confessou-me o ex-padre - Entrei num bar e bebi até cair… Depois, quando despertei, deitado no banco de um jardim, comecei a pensar melhor. Não podia deixar que a vida se escoasse daquela maneira, não podia permitir que tudo se acabasse. Eu tinha um carro, tinha algumas economias. Se não era possível dar aulas, poderia ao menos negociar com mercadorias. Comprei um caminhão velho, depois um mais novo e, por fim, tenho conseguido sobreviver até que razoavelmente bem…

Levantou-se, não me deixou pagar sua despesa.

Acompanhei-o até o caminhão, um belo Scania novo, todo enfeitado e equipado.

- Está bonito! - elogiei, subindo à cabina para vê-la por dentro.

Televisão, rádio, toca-fitas, CD-player, ar-condicionado, até mesmo um transceptor faixa-do-cidadão! Completa, a cabina do monstro!

E, bem no meio do painel, um adesivo magnético de Nossa Senhora Aparecida, com uma fotografia de uma criança louríssima, os olhos bem claros e uma face linda.

Embaixo da fotografia, os dizeres:

Papai, guie com cuidado. Em casa, Mamãe e eu esperamos por você.

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Monday, August 20, 2007

Espera na Eternidade

Fazendas Santas Marias existem às dúzias, provavelmente às centenas.

Em cada município podemos encontrar pelo menos uma, grande ou pequena, bonita ou feia, bem explorada ou até mesmo abandonada.

Geralmente, talvez para diminuir um pouco a confusão e para personalizar sua propriedade, há quem as faça Santa Maria de Alguma Coisa: Santa Maria da Ponte Preta, Santa Maria da Mata Adentro, Santa Maria do Rio Acima e por aí vai. Em Minas Gerais, perto de Poços de Caldas, há uma Fazenda Santa Maria do Rego. Seu proprietário, um estrangeiro apaixonado pela região, demorou muito tempo para descobrir por que diabos
todos sorriam quando ele dizia o nome de suas terras. Quando ficou sabendo o significado jocoso-pejorativo do termo “rego”, achou que era melhor mudar alguma coisa no nome da propriedade. Depois de muito pensar, chegou à conclusão que o melhor era ela passar a se chamar Fazenda Santa Maria do Rego Fundo…

Mas, a intenção não é fazer um ensaio sobre nomes de fazendas…

A intenção é, tão simplesmente, contar uma história que, segundo as pessoas que a trasmitem de boca a ouvido na região serrana do Espírito Santo, é absolutamente verídica, por mais fantástica que possa parecer.

De natureza homem do campo e por profissão preso a uma escrivaninha na cidade, sua diversão nos fins-de-semana era passear pelo interior visitando e conhecendo fazendas.

Costumava dizer que não poderia morrer sem ser um proprietário rural e, se isso viesse a acontecer, ele passaria o resto da eternidade assombrando aqueles que, de uma maneira ou de outra, tivessem contribuído para que
seu sonho não se realizasse.

Assim, ele e a mulher , aliás companheira fiel de sonhos e passeios agrários, conheciam como a palma da mão quase toda a região agrícola daquela parte do Estado. Bem poucas estradas, boas ou ruins, deixaram de ser trilhadas e esmiuçadas em cada quilômetro, em busca de uma fazendinha, de um simples sítio que fosse, com que eles pudessem fazer contas e sonhar.

Viram de tudo.

Desde belas fazendas e imponentes propriedades com casas senhoriais do século passado, até sitiocas pobres, com ranchos de pau-a-pique ou casinhas humildes de barro batido.

— Precisamos encontrar uma área boa, com uma casa bem antiga e em razoável estado de conservação. O problema é que precisa ser bem barato… Na bacia das almas!

E toca a procurar, a tomar informações, a sondar um, perguntar para outro…

Souberam, através de um amigo, da Fazenda Santa Maria da Esperança.

Estava à venda e, como se tratava de uma partilha de espólio ainda em inventário, o preço estava muito tentador, os herdeiros precisando urgentemente de dinheiro para poderem tocar o restante do processo.

— Se você não comprar — disse-lhe o amigo — outro vai lá e arremata. E eu tenho certeza de que é justamente o lugar com que vocês tanto sonharam por todos estes anos.

Marcaram a viagem para o final de semana, fizeram as contas, montaram uma proposta de compra e sonharam, durante quatro noites, com a tal fazenda.

Finalmente, o fim-de-semana chegou e, bem cedo, eles partiram.

Com pouco mais de quatro horas, chegaram à cidadezinha próxima à tal propriedade.

Ela logo se apaixonou:

— É o tipo de cidadezinha que eu adoro! Olhe só que calma! Que paz! É um perfeito paraíso!

Passaram o dia por ali, almoçaram numa espécie de restaurante e pensão, ouviram a banda municipal tocando no coreto da praça, namoraram de mãos dadas sentados num banco, no jardim em frente à igreja, té Missa eles assistiram!

Esqueceram-se de que estavam no final do Século XX, sentiram-se transportados para várias décadas atrás, para a época de 1930, quem sabe…

Dormiram na casa do médico da cidade que, solícito, ofereceu-lhes pousada explicando que, por pior que ficassem instalados em sua casa, estariam melhor do que na pensão, onde provavelmente teriam que disputar lugar na cama com percevejos e pulgas.

Logicamente, eles não acreditaram, acharam que o doutor estava falando aquelas coisas apenas por que queria tê-los em sua residência…

No dia seguinte, ainda escuro, levantaram-se cheios de ânimo para conhecer
a fazenda.

— Até o nome é sugestivo — disse o corretor encarregado de intermediar a negociação — Fazenda Santa Maria da Esperança… Não se pode dizer que seja um nome feio!

Região cafeeira, dava gosto andar por aquela estrada. De ambos os lados, extensos e bem cuidados cafezais, fazendas bonitas, bem tratadas, com construções antigas bem conservadas, com todos os sinais de uma região bastante rica. Via-se que o solo, fértil, gratificava quem nele derramasse o suor.

As pastagens verdejantes estavam salpicadas por reses bonitas, raçadas, saudáveis, enfiadas no capim viçoso até a metade das pernas…

Sinal de pasto bom, de leite farto, de carne gorda.

Depois de uma curva, mudança radical na paisagem: sem qualquer transição, do verde dos cafezais e das pastarias bem roçadas, entraram numa área de campos sujos, capoeiras altas e vegetação típica de terras cansadas e abandonadas.

Logo mais à frente, o corretor falou:

— É aqui… Fazenda Santa Maria da Esperança. Chegamos!

Mostrando a porteira de colchete, acrescentou:

— Eu abro… Vamos entrar pela porteira. Não confio nesse mata-burro.

Notaram logo que tudo ali estava jogado à própria sorte.

A estrada de acesso deveria ter sido muito bonita em outras épocas.

Palmeiras imperiais margeavam-na simetricamente, havia ainda resquícios de canteiros de flores em um ou outro lugar. Lá adiante, beirando as ruínas de um muro, uma primavera tinha virado árvore de tão velha e mal cuidada e, numa pequena descida, a erosão destruíra as laterais da estrada deixando apenas uma

faixa central estreita que mal dava para o automóvel passar.

— Está péssima a estrada!

— Sim… Mas para nós é bom sinal: os proprietários não parecem estar ligando muito para isto aqui… O que quer dizer preço baixo!

Uma ponte semi-destruída quase os fez descer do carro e prosseguir a pé. Após alguns instantes de vacilação e após ele ter examinado criteriosa e cuidadosamente as vigas de sustentação da ponte, atravessaram.

— Como é bonito! Como é encachoeirado, este rio!

Na curva que o rio fazia cerca de duzentos metros a jusante, havia um cruzeiro e pedra de quase quatro metros de altura.

— Veja que bonita, aquela cruz!

Seguiram em frente e, após alguns minutos, chegaram ao que, outrora, fora o jardim de um enorme casarão do final do Século XIX, completamente abandonado e parcialmente em ruínas.

Um terreirão de secar café, feito de tijolos grandes, à direita, continuava-se nos galpões e nos lavadores. À esquerda, mais perto da entrada da varanda da velha sede, espalhavam-se diversas árvores que, após um exame mais atento, mostraram ser floreiras, primaveras e camélias. A falta de trato, o abandono, tinham-nas transformado em plantas sem jeito, de tronco grosso, copadas, com cara de mato. Um jasmineiro imenso estendia seus galhos bifurcados por cima de uma pequena depressão que, muito antigamente, fora um laguinho, com repuxo de água e tudo o mais… Flamboyants que abrigariam sob suas largas copas uma casa inteira, mais pareciam olmos de tão grandes.

Tudo indicava que havia algumas décadas que jardineiro nenhum passava por ali.

Por trás da casa, estava o que restara do pomar.

Teria sido muito bom, bonito e produtivo enquanto ainda cuidavam de suas fruteiras, impedindo as ervas daninhas de invadir as ruas do laranjal, combatendo as plantas parasitas e não as deixando subir pelas mangueiras e jaboticabeiras.

Ainda assim, apesar de todo esse abandono, o chão estava forrado de frutas que tinham caído das árvores…

Olhando para os lados e estranhando não avistar ninguém, o casal subiu os degraus de acesso à varanda do casarão.

Era como qualquer casa antiga de fazenda: imponente, de paredes grossas, portas e janelas enormes, pé-direito altíssimo.

O chão da varanda devia ter sido refeito no correr dos anos, era de lajotas portuguesas, grandes, o desenho já quase desaparecido pelo uso e pela sujeira.

Ninguém para recebê-los, foram dando a volta à varanda.

Esta, contornando três lados do corpo principal da casa, mostrava que, em outros tempos, tinha sido muito bonita e agradável e a vista que se podia descortinar de lá, uma vez a fazenda novamente bem cuidada,
seria maravilhosa.

Quando chegaram à parte traseira da construção, o cheiro de algo cozinhando denunciou a presença humana por ali.

— Hummm… Esse cheirinho de refogado está me dando fome…

Uma porta estava entreaberta e eles bateram.

— Pode entrar! — gritou lá de dentro, uma voz de velho.

O corredor, comprido, escuro, de tábuas largas e já meio carcomidas elo tempo e pelos cupins, fez ecoar o som de seus passos.

— Gosto desse barulho…

Debruçado sobre uma mesa rústica que só poderia ter sido feita lá dentro, pois era tão grande que jamais passaria por qualquer das portas da casa se tivesse de ser removida, um velho esfarrapado
escolhia feijão.

No fogão a lenha, em meio a uma nuvem de fumaça que indicava o entupimento da chaminé, três panelas e uma frigideira enegrecidas pelo uso e pela falta de limpeza. Ao lado, um bule de café recebia o líquido que escorria de um coador de pano cujo cabo estava enfiado num buraco da parede. Por todos os lados, onde quer que se olhasse, reinavam a sujeira e o desmazelo. No meio da cozinha, o focinho entre as patas, um cachorro tão velho quanto o homem que ali se encontrava, dormia sem dar a menor mostra de ter percebido os recém-chegados.

— É só apurar um pouco o feijão e já poderemos almoçar — disse o velho, num sorriso desdentado.

Fazendo sinal para que eles se sentassem por ali, à beira do fogo, perguntou:

— Vieram ver a fazenda? Estão querendo comprar?

Ante a resposta evasiva do casal, ele falou, com uma sombra de tristeza no olhar:

— A fazenda é grande… Tem muita terra por aí. Já foi muito boa… Muito, mesmo!

Deixando a colher com que estivera mexendo uma das panelas sobre o fogão, e sem se incomodar com a imundície do lugar onde a pousara, o velho disse:

— Podem ir vendo a casa… Ela precisa de alguns consertos, mas…

A velha mansão estava caindo aos pedaços. Na realidade, porém, com um pouco de dinheiro, boa vontade e uma turma de pedreiros competentes, conseguiriam transformá-la num autêntico palácio. Em muitos lugares, o telhado estava aberto, faltavam telhas. Em outros, era o assoalho que se mostrava esburacado, as tábuas podres, perigosas. Num dos quartos, uma das paredes ameaçava ruir, rachada que estava de alto a baixo.

A poeira dominava tudo com uma espessa camada cinza-avermelhada sobre todos os objetos.

A casa não estava vazia. Móveis antigos, alguns enfeites, muitas quinquilharias do final do século passado e do início deste, tudo isso lá estava, na mais absoluta desordem.

A mulher se apaixonou.

Já sonhava com a reconstrução da velha casa, mantendo a mesma distribuição, as mesmas características, melhorando apenas uma ou outra coisa dos banheiros… Já idealizava a decoração do imenso salão usando os mesmos armários velhos que vira jogados por ali e somando a tudo as peças que iria buscar nos antiquários.

Sentia-se transportada para o final do Império, chegava a ver as aias negras circulando pela casa com seus vestidos muito brancos, as toucas na cabeça…

— Esta é a fazenda com que sempre sonhei!

O velho, acompanhando-os, mostrava pacientemente aposento por aposento, abrindo as janelas, deixando entrar luz naqueles quartos que, tudo indicava, havia muito que não viam um raio de sol.

— Não reparem na sujeira… É que nunca dá tempo de limpar a casa…

— O senhor vive sozinho, aqui? Há muitos anos?

— Há mais de setenta anos, moça… Nasci aqui…

— E quantos anos faz que a fazenda está abandonada?

O velho riu com estrépito.

Era uma gargalhada completamente fora de propósito, pois nada havia de engraçado na pergunta.

— Há quase cinqüenta anos, moça… Quando fiquei sozinho aqui, eu tinha pouco mais de vinte anos.

Terminada a visita à casa, almoçaram e saíram para conhecer os pastos e capoeiras da propriedade.

Apesar do completo abandono, via-se que a terra era fértil, as matas ricas em boas madeiras… Era só trabalhar que a fazenda voltaria a produzir excelentes safras.

O dia já terminava quando voltaram para a sede.

Fazia frio e, lá para os lados do noroeste, uma tempestade apontava.

Menos de meia hora depois, a chuva os alcançou molhando tudo, deixando as estradas intransitáveis.

— Melhor vocês jantarem aqui. Com essa chuva toda… Do jeito que está, o carro não passa a ponte. É perigoso até cair no rio…

Aceitaram de bom grado, mesmo por que a comidinha porca e simples que ele estava fazendo desprendia um aroma deliciosamente convidativo.

Terminado o jantar, a chuva caía ainda mais forte e, para agravar, começara a ventar, um vento em rajadas, violento, extremamente frio.

— Com quem teremos de falar a respeito do negócio? — perguntou o rapaz.

— Com um pessoal lá de Vitória — respondeu o velho — Eles nunca vêm aqui, já faz muitos e muitos anos…

Calaram-se novamente, ouvindo a tempestade lá fora, violenta, parecendo quebrar tudo, o céu de quando em quando rasgado por um relâmpago fortíssimo.

O velho acendeu um toco de cigarro de palha que tirou de trás da orelha e disse, sem olhar para ninguém, parecendo mais que estava pensando em voz alta:

— Isto aqui já foi uma fazenda muito bonita, cheia de gado gordo, boas lavouras… A colônia, lá embaixo, parecia uma cidade de tanta gente que tinha. Até escola, o patrão pôs aqui, com professora paga do bolso dele e tudo o mais!

Calou-se, olhando para a brasa do cigarro, os olhos mortiços, a expressão melancólica e triste.

— E como é que tudo foi acabar desta maneira? — quis saber a moça, para estimular outra vez a conversa.

O velho se levantou do banquinho de tábuas em que estava sentado e caminhou na direção de um velho guarda-comidas ensebado e sujo.

De repente, aos olhos dos visitantes, ele pareceu muito mais velho e alquebrado do que até poucos momentos atrás, movendo as pernas com dificuldade, as costas arqueadas…

Pegou de dentro do guarda-comidas uma garrafa de cachaça, encheu um copo com a bebida, ofereceu para os demais e, como recusassem, ergueu os ombros, indiferente. De uma só golada, esvaziou o copo, encheu-o novamente e disse:

— Dona… É uma história muito triste…

* * * * * * *

Sessenta anos atrás, a Fazenda Santa Maria da Esperança era a melhor e mais produtiva de toda a região.

Os proprietários, morando naquela mesma sede, desdobravam-se em melhorar e aumentar a fazenda, em modernizá-la, em fazê-la produzir cada vez mais. Na verdade, era essa a mentalidade da maioria dos proprietários rurais da época. A diferença estava no fato de que estes, os donos da Santa Maria da Esperança, jamais terem descuidado um momento sequer do bem estar de seus empregados e sempre permitiam àqueles que de alguma maneira se destacavam, uma oportunidade de progredir na vida.

Foi justamente isso o que aconteceu com ele.

Filho de um dos mais fortes meieiros da fazenda, criado na base do ferro e do relho, sem a menor folga para nada, cedo descobrira que a melhor maneira de não ter que se matar demais no serviço do campo era se destacando na escola.

Foi justamente o que fez.

Esforçou-se para aprender letras e números, rachou a cabeça e queimou as pestanas fazendo contas.

Teve sua recompensa: o patrão ficou sabendo de todo esse esforço e chamou-o para trabalhar no escritório.

Logo mostrou seu valor.

Com pouco mais de vinte anos de idade, era responsável, competente, conseguia dar conta de tudo quanto o patrão mandava fazer e jamais deixou algo para o dia seguinte. Mesmo que precisasse varar a noite debruçado
sobre os livros da fazenda, ele sempre acabava a empreitada dentro do prazo.

Tornou-se o funcionário mais importante e mais querido da fazenda e, conseqüentemente, um dos que recebiam salários mais altos. Seus ganhos eram iguais ao do engenheiro agrônomo e do veterinário, para se ter uma idéia.

— Continue assim, rapaz! — dizia-lhe o patrão — Você irá longe! Muito longe!

E ele continuou.

Trabalhava como um mouro escravo, estava sempre bem disposto e sorridente, não reclamava de nada.

Ajudado pelo filho, seu pai resolveu comprar uma terrinha no norte do Estado e, um belo dia, para lá se mudou.

Ele não o quis acompanhar.

Preferiu ficar ali no escritório da fazenda, sabia que teria muito mais futuro e trabalho menos pesado do que sob o comando e jugo de seu pai. De mais a mais, ele gostava do trabalho no escritório e…

Havia um outro motivo, e bem mais forte do qualquer outro que o impedia de deixar a Santa Maria da Esperança…

E esse motivo chamava-se Adelaide.

Adelaide era a filha única do patrão.

Assim, era de se esperar que fosse a menina dos olhos do fazendeiro e, com quinze anos de beleza e graça, ela iluminava toda a Santa Maria e, especialmente, a alma do jovem escriturário.

No começo, ele apenas percebeu que se sentia um pouco diferente quando a via e, pior ainda, quando por um dia inteiro ela deixava de descer ao escritório, fosse para dar um recado, fosse simplesmente para dar um beijo no pai.

Depois, foi se rendendo à realidade: era fortemente atraído por ela, estava apaixonado.

Viu, desesperado, que a amava perdidamente, que não saberia ser de outra mulher, que a desejava acima de qualquer outra coisa na vida.

Encorajado por um ou dois sorrisos e movido pelo combustível do amor, já nessas alturas completamente irracional, começou a cortejá-la.

Trazia-lhe uma flor, arranjava-lhe uma fruta do mato numa cestinha de taquara que passara a noite inteira fazendo…

Um dia, trouxe-lhe uma gaiola de pauzinhos, grande, bonita, muito bem trabalhada. Demorara quase um mês para fabricá-la, quase um mês sonhando com ela, com o sorriso que daria quando recebesse o presente.

Estudou cuidadosamente o que diria, pensou, repensou, decidiu.

— É para você me prender nela um dia — falou, muito
vermelho, quase sem acreditar que conseguira juntar coragem bastante para pronunciar essas palavras.

Adelaide ouviu, entendeu a frase, corou muito e agradeceu.

Passou três dias sem ir ao escritório, deixando-o desesperado, sem saber o que fazer.

No quarto dia, olhando por acaso — ou será que não teria sido tão por acaso assim? — para a janela do quarto de Adelaide, viu a gaiola que fizera dependurada na janela.

Vazia.

Sem nenhum passarinho dentro.

Entusiasmou-se.

Então, ela não tinha jogado fora seu presente!

Sentiu renascer em seu peito, as esperanças.

Passou todo o fim-de-semana tentando apanhar, no alçapão, um curió.

Finalmente conseguiu e, incontinenti, foi levá-lo para a moça.

No dia seguinte, olhando para a gaiola, constatou que ela ainda estava vazia.

Quando Adelaide passou pelo escritório para falar com o pai, deu um jeito de lhe perguntar:

— E o curió?

— Ah! — fez a moça, ficando muito vermelha — Eu soltei…

E, antes que ele pudesse protestar, ela continuou:

— Se o pusesse na gaiola, não teria lugar para prender você…

O casamento se realizou um ano e meio depois, uma festa que sacudiu a fazenda e toda a região, por uma semana inteira.

A Fazenda Santa Maria da Esperança se transformou, para ele, naquilo que se poderia chamar de recanto da felicidade.

E da prosperidade.

Ao mesmo tempo em que a família aumentara, chegara o progresso, com máquinas modernas para beneficiar arroz e café, tratores, grades, discos de arado, luz elétrica…

Ela estava mais bonita do que nunca, ele não cabia em si de tanta felicidade, de tanta confiança no futuro.

Alguns meses depois de casada, o volume mal disfarçado de sua barriga mostrava que esse amor, fértil como as terras da Santa Maria da Esperança, já estava prestes a frutificar.

Uma madrugada de chuva — chovia a cântaros naquela longínqua noite — o bebê deu o primeiro sinal de querer nascer.

A família toda, alvoroçada, movimentou a fazenda.

— Chamem a Quinca Parteira! — sugeriram alguns.

Querendo o melhor para a filha, o fazendeiro achou que deveriam levá-la para a vila. Seria uma viagem de hora e meia de automóvel e sempre ela poderia contar com a assistência do médico.

— Vamos só esperar que a chuva melhore um pouco.

Decidira que levaria a filha para a vila, acompanhado da mãe, enquanto o marido ficava em casa para, principalmente, não atrapalhar com o nervosismo característico do marinheiro de primeira viagem.

Numa estiada da chuva, partiram.

Ele ficou no terraço, por um bom tempo, olhando para a chuva que recomeçara, preocupado, tenso, nervoso.

Depois, já o dia começando a amanhecer, um dos peões da fazenda veio correndo com a notícia:

— Eles caíram no rio! Caíram da ponte!

Por um bom par de minutos, ele não teve qualquer reação.

A boca aberta, o cigarro entre os dedos, o olhar parado, foi preciso que o peão o sacudisse para que voltasse à realidade, para que compreendesse que uma tragédia acontecera.

Atordoado, como se estivesse vivendo um pesadelo, foi até o local do acidente.

Ainda pode ver as marcas da derrapagem, a guarda da ponte quebrada no lugar
onde o carro despencara.

Todos os três mortos. Aliás, todos os quatro.

A correnteza, muito forte por causa da enchente, arrastara o automóvel, enchendo-o de água e não dando tempo de ninguém se salvar.

Herdou tudo, é claro… Porém, desestimulado, começou a beber e logo já se descuidava de tudo, da terra, de si mesmo.

Os meieiros e empregados foram embora, e a antes próspera Fazenda Santa Maria da Esperança, transformou-se numa grande gleba de terras abandonadas.

Sem produção, não há dinheiro e, para poder sobreviver, hipotecou a propriedade para um grupo de Vitória que, no prazo certo, executou a dívida e ficou com a fazenda.

Grupo importante, com intenção apenas de imobilizar patrimônios, fez com ele um contrato de comodato e, assim, ele lá ficou, como um guardião, como vigia de uma fazenda que já fora sua e que, de repente, não o era mais.

* * * * * * *

— Foi assim, dona — disse o velho, a voz trêmula — Foi assim que esta fazenda acabou como está…

O silêncio caiu sobre eles, pesado, denso, espesso como uma neblina de inverno.

Afinal, ela perguntou:

— Porque o senhor não vai embora daqui? Não deve ser bom permanecer num lugar com tantas recordações, com tantas marcas do passado!

— Ah, dona! — fez ele — Não posso ir embora…

Baixando a voz, explicou:

— Nas noites de tempestade, ela vem me visitar… Ela e meu filho! Eu ficarei aqui, esperando… Um dia, ela virá para me buscar e aí sim, poderei deixar de esperar…

Subitamente, a tempestade aumentou.

Cientes da impossibilidade de voltar para a cidade, o casal resolveu aceitar o oferecimento do velho de ali passarem a noite e acomodaram-se, da melhor maneira que puderam, apenas com o intuito de cochilar um pouco.

— Partiremos pela manhã.

Cerca de duas horas depois de terem ido para a cama, escutaram passos pelos corredores, o assoalho rangendo sob o peso de pisadas.

— O velho deve sofrer de insônia…

De repente, ouviram nitidamente o choro de uma criança e as risadas de um homem e de uma mulher.

Risadas jovens, de gente moça, gente que não estava na casa quando eles tinham ido deitar…

Levantaram-se, intrigados, curiosos, querendo saber como é que alguém teria conseguido chegar até ali com a estrada daquele jeito.

Então, eles viram…

Num canto da sala, havia um moço desempenado e robusto, com uma criança no colo e, ao seu lado, uma moça alta e muito bonita, usando um vestido de seda e com uma echarpe branca jogada displicentemente ao redor de seu pescoço.

Uma tênue luz azulada envolvia os três e eles reconheceram as feições remoçadas, muito remoçadas, daquele velho que lhes estivera contando a história da Fazenda Santa Maria da Esperança.

Sentiram sono…

Um sono profundo, pesado, que os fez adormecer ali mesmo, na sala, sobre os estofados meio apodrecidos da casa.

Acordaram bem tarde, sem o menor sinal de tempestade, o sol já alto…

Chamaram pelo velho, não obtiveram resposta.

Entreolharam-se. — Não — disse o marido, antecipando-se à pergunta da mulher — Não foi um sonho… Tenho certeza de que vivenciamos algo muito estranho!

Caminharam até a cozinha, chamaram novamente pelo velho.

Mais uma vez, sem sucesso.

Já preocupados, começaram a vasculhar a casa.

Encontraram-no.

Estava num catre, num quartinho miserável, parecia estar dormindo, tão sossegadamente morrera.

Ao seu lado, no chão, uma echarpe branca.

Incrivelmente branca e limpa para ter estado naquela casa por muito tempo…

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A Beleza Feminina

Escuto, indiscreto sem querer, a conversa do casalzinho que está à mesa ao lado da minha, num restaurante qualquer.
Muito séria, a mocinha pergunta:
- O que é que você considera “uma mulher bonita”?
Galante e até mesmo um pouco anacrônico, o rapaz responde:
- Uma mulher como você…
Não posso deixar de considerá-lo cavalheiro, mas da mesma maneira, eu o acho um pouco pobre no que diz respeito à definição.
Sorrio, com tristeza, de mim mesmo.
Se sou capaz de me julgar capacitado à crítica, essa capacidade se deve apenas à idade… O que tenho, no fundo, não passa daquele ciúme nostálgico que bem pode ser explicado como “inveja da juventude”…
A mocinha, mais objetiva e bastante exigente, não se contenta com aquela resposta e reclama:
- Você não disse nada. Não respondeu à minha pergunta.
Muito mais esperto do que eu poderia imaginar, o rapaz lhe dá um beijinho, outro e mais outro, atacando imediatamente em seguida seu prato, deixando o assunto tombar por terra.
Está decidido a não responder, a não se comprometer…
Pois bem, cara mocinha, minha bela menina-mulher… Já que seu companheiro não satisfez sua curiosidade, vou procurar fazê-lo.
Em primeiro lugar, não pense você que a presença destes cabelos brancos e destas rugas que maldosamente já começam a me circundar os olhos e a tornar mais duro o meu sorriso, sejam motivos suficientes para você me classificar de “velho”. Posso ser mais idoso que você e seu companheiro juntos mas, ainda falta muito para que eu me considere velho e ultrapassado.
No fundo, esses anos todos que já vivi, no mínimo serviram para que certos conceitos meus sejam um bocado diferentes da média, sejam talvez muito subjetivos e até difíceis de explicar, mas pode acreditar, minha menina bonita, são conceitos trabalhados, vivenciados e muito analisados…
Conceitos que, pelo menos, me satisfazem e que, no que diz respeito à beleza feminina, pode ser que a satisfaçam também.
Certa vez, ouvi um desses filósofos de bar dizer que o belo na mulher é exatamente aquilo que se contrapõe ao feio do homem.
Talvez seja esta uma boa maneira de entender como e por que mulheres tão bonitas se casam com homens tão feios… e vice-versa.
Mas na minha opinião, são balelas, ginásticas mentais e palavrório inútil.
Uma mulher é bela porque…
É simplesmente bela.
Ao lado da parte física, a matéria harmoniosamente constituída, as linhas e curvas esteticamente bem equilibradas, há algo mais, há qualquer coisa que faz com que o homem que a vê sinta, de repente, um enlevo todo especial e a deseje…
Sim, ele pode desejá-la e de muitas maneiras.
Talvez até mesmo como eu a estou desejando agora, sem nem sequer pensar em qualquer coisa que seja diferente de um platonismo até fora de moda.
É esse algo mais, essa aura que circunda a mulher que é bela, que é capaz de fazer com que uma criança - esse serzinho que ainda não tem maldade em sua alma, que não tem malícia alguma em seu coração e não possui qualquer idéia carnal em sua mente -a veja e diga, com um sorriso encabulado:
- Você é bonita…
Seria, essa aura, uma expressão ectoplásmica da bondade?
Não sei…Não sei definir muito bem o que possa ser a bondade feminina.
Seria a capacidade de se entregar ao amor, de se dedicar ao homem que ama, de se desdobrar como diz Raimundo Corrêa, “desfiando fibra por fibra o coração” em relação a seus filhos? Ou seria a bondade apenas o fato de ser cordata, dócil, simpática e sempre pronta a servir?
Há mulheres belas que não são assim…
Têm sua vida própria, seu brilho próprio, independem de todo e qualquer homem, não querem saber de filhos - estes atrapalhariam seus objetivos - e nem por isso deixam de ser belas, deixam de ser desejadas…
Mas…
Olhando-me interiormente, avaliando a experiência que estes cabelos brancos provam, penso se estas mulheres, belas, belíssimas, maravilhosas e atraentes, mulheres por quem um homem seria capaz de cometer as maiores loucuras, penso se elas continuarão merecedoras de toda essa devoção… dentro de trinta anos.
Sim.
Dentro de trinta anos, quando a chamada “idade madura” chegar, com o grisalho nos cabelos, as juntas já um tanto rígidas, a disposição para tudo, bem arrefecida, a vida marcada por desencontros e desencantos, por desilusões e frustrações, será que essas mulheres continuarão belas?
Ou será que em seus rostos, já então vincados, não estará mais presente do que qualquer outra coisa, o amargor decorrente de tudo o que foi vivido, de tudo quanto foi passado, sofrido e, sobretudo, de todos os momentos perdidos na perseguição de um ideal, de uma meta que, fundamentalmente, não era a sua?
Veja, minha bela menina-mulher…
Sim, pois você é bela, pelo menos ainda…
Continue assim como a vejo, olhando com carinho para esse bobalhão que está à sua frente… Continue a ser como é, a pensar como uma menina e a agir como uma mulher.
Talvez seja esse o segredo…
Tenha suas metas, persiga-as. Alcance-as. Realize seus sonhos materiais, profissionais, financeiros.
Conquiste seu lugar na cruel sociedade, seja alguém, vença!
Mas, para que continue a ser bela, para que até mesmo esse apolônico imbecil que a tem hoje, continue a seus pés, é preciso apenas uma coisa: é preciso que você jamais deixe de ser, simplesmente, mulher…
Posted by Kirsteller at 04:49:25 | Permalink | No Comments »