Wednesday, August 22, 2007

JUS ESPERNEANDI

A Justiça dos homens – e muito provavelmente, a desta nossa amada terrinha, em especial – concede ao réu o direito de espernear. Mormente quando se trata de um réu de cheia carteira. É exatamente como na fábula de Lobato, O sapo e o latão de leite, em que um gordo Bufus sp., vai parar dentro de um latão de leite e, persistente, esperneia sem parar e acaba por se salvar porque, com toda a sua movimentação, o leite se transforma em manteiga. Ora, isso só foi possível porque o leite era gordo – portanto, rico – e teve condições de se transformar em manteiga. Fosse o leite ralo, magro, pobre, o sapo teria morrido, o leite jamais se transformando em manteiga.

O réu de rica carteira pode espernear, pode lançar mão do jus esperneandi, pois tem como sustentar os advogados, tem como bancar as custas de um longo processo, de uma seqüência inimaginável de movimentações jurídicas que culminam, indefectivelmente, num prolongamento do tempo de processo e até mesmo a que este venha a terminar quando uma eventual pena já esteja devidamente prescrita.

E isso, é óbvio, sem contar com os incríveis, complicados e demorados meandros processuais que fazem com que o réu venha a ser julgado, a sentença proferida – e depois ou o julgamento é anulado ou a sentença é reformada. O resultado, não importa o que aconteça, é sempre o mesmo: impunidade para os ricos culpados e grade para o pobre, seja este culpado, semi-culpado ou até mesmo inocente.

Está certo, minha senhora e meus senhores… Pelo menos filosoficamente não existe meio culpado, assim como não pode existir uma mulher que esteja meio grávida, ou alguém que seja meio homossexual. Essas coisas, não admitem meio-termo, bem sei. Mas somos obrigados a admitir – não concordam? – que há uma diferença significativa entre aquela mãe pobre (vejam bem que não se trata simplesmente de uma pobre mãe) que rouba um pote de margarina no valor de R$1,50 e o político que mete a mão em um milhão e meio de reais… E o engraçado é que este último não vai parar atrás das grades, enquanto a mãe pobre fica meses mofando numa cadeia imunda.

Mas citei como exemplo de desonesto rico um político qualquer e cometo, com isso, uma injustiça. Temos a esperança de que nem todo político seja desonesto, criminoso. É bem verdade que seria preciso procurar com uma lanterna, tal como Diógenes… Mas deve existir. Impossível que toda a política esteja tomada por bandidos de gravata!

Acho que eu seria um pouco mais justo se mencionasse, também como exemplo de impunidade, os bandidos que já estão atrás das grades e que, mesmo assim, lá de dentro dos presídios devidamente transformados em escritórios administrativos do crime, continuam a gerenciar suas atividades, a ganhar rios de dinheiro e, graças a sólidas e imensas fortunas, seguem comprando desde carcereiros até desembargadores, passando por toda a escala cromática da hierarquia judiciária.

E isso sem levar em conta a palhaçada caríssima de se transportar criminosos de Catanduvas para o Rio de Janeiro, por causa de uma audiência. E o transporte é feito num jato executivo! Provavelmente com lanchinho a bordo, e isso se não houver o privilégio de um drinque. Importado, é óbvio.

E lá vai Fernandinho voando luxuosamente para o Fórum… E lá vem Fernandinho de volta para seu apê em Catanduvas… E nós, pagando, é claro.

Não tinha sido autorizado o sistema de julgamentos através de vídeo-conferência? E a troco dequê o raio do julgamento foi adiado? E onde será que Fernandinho vai esperar pela nova data? Será que numa suíte presidencial do Copa? Dinheiro para isso ele tem, se quisesse e pudesse optar. Mas para quê? O governo, com certeza, há de lhe proporcionar acomodações confortabilíssimas e… muito mais seguras e garantidas do que em qualquer cinco estrelas!

Enquanto isso, a mãe pobre mofa num depósito de presos. Cria bolor e revolta. O defensor público, se é que houve um, mal leu o processo, deixou que as coisas corressem. O juiz que deu a sentença – ou que simplesmente foi protelando o andamento do processo, por ser algo de pequena monta e que não haveria de gerar qualquer tipo de benefício – nem se deu o trabalho de analisar motivos, razões, situações. Ela roubou? Há de pagar! E fecha o processo, apressado, para atender o telefonema do advogado de um traficante de peso, dono de cinco casas de bingo, advogado este com quem se encontrou no jantar da véspera, durante o qual recebeu um envelope pardo e pesado, para lhe dizer que sossegasse, que até o fim do dia o seu cliente estaria em liberdade.

Ou seja, gozando em toda a plenitude a Impunidade.

FONTE: http://www.ryoki.com.br 

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O Brasil é maior do que seus políticos

Mas será, mesmo? Ou, melhor perguntando, se for, por quanto tempo agüentará? Será que Deus é tão brasileiro a ponto de nos dar a capacidade de resistir eternamente a tudo isso que é feito – pelo menos parece – de propósito para destruir este país? Ou será que Ele é tão pândego que só pensa em gargalhar das coisas realmente inacreditáveis que vemos acontecer por aqui?

Muitas vezes penso que é esta segunda alternativa a mais válida. Deus se entristece assistindo de Seu trono no Céu as barbaridades cometidas no Iraque, no Afeganistão, na Chechênia e em muitos outros lugares. Certamente chega a derramar Suas lágrimas divinas ao ver tantas crianças morrendo de fome na África… Muito provavelmente revolta-se com a teimosia dos homens que insistem em produzir armas de destruição em massa. Irrita-se com a excessiva ganância dos poderosos que, para se tornarem ainda mais poderosos – e só para isso, realmente, pelo poder – não hesitam em exterminar os mais fracos que, segundo esses mesmos poderosos, não têm importância nenhuma, existindo apenas para superpovoar o mundo e, com isso, constituírem populações maiores ainda de famintos. Conseqüentemente, mais problemas para os mais ricos.

Esquecem-se esses mais ricos que só se tornaram assim graças ao trabalho, ao suor e ao sangue desses mais pobres.

Mas estava eu dizendo que Deus – que também tem sentimentos – fica triste com tudo o que vê de errado no mundo. Ora, como diz a Bíblia e nós, pobres crédulos que somos, acreditamos, da mesma maneira que a Ira de Deus é terrível, a Sua tristeza deve ser imensa… E seguindo a teoria da dualidade das coisas, se há uma tristeza imensa, tem de existir… uma pândega também imensa.

Conclusão lógica: a pândega de Deus é imensa.

E Ele há de ter onde descarregar essa pândega, pois não nos é possível imaginar que Ele se desaguache lá mesmo no Céu, pregando peças em São Pedro ou contando piadinhas racistas para São Benedito. Deus tem de ter uma válvula de escape aqui na Terra e…

Penso que estou certo a cada dia que passa e que mais se aproxima do fatídico 1º de outubro, quando haverá a enorme probabilidade de sacramentar-se a maior besteira deste lado do Meridiano de Tordesilhas desde o Dia do Descobrimento, ou seja, quando cerca de 61 milhões de ingênuos farão voltar – melhor dizendo, deixarão permanecer – uma situação de caos, de mentiras, de crimes e de prevaricações jamais vista nesta terra.

Ele, o nosso Deus, só pode achar graça nisso tudo que está acontecendo.

E como não rir? Como não rir de um povo que se deixa enganar permanentemente, que não percebe – ou simplesmente não acredita naqueles que percebem – que tudo isso não passa de uma comédia? E, diga-se de passagem, de uma comédia ruim, daquele tipo pastelão, que o expectador ri mais de raiva do que da impossível graça que lhe foi tentada transmitir?

Como é possível não rir de nossa própria benevolência – para não dizer ingenuidade ou burrice – por nada fazermos apesar de termos visto na telinha, o presidente-candidato descer de um avião da FAB para ir fazer um comício de campanha? Sim… Já sei que os do contra, mesmo amigos meus, dirão que ele foi até aquela cidade numa missão oficial e que o comício aconteceu depois do expediente. Sim… Mas o avião presidencial foi embora sozinho? Ou esperou pelo presidente-candidato? Será que só ele-lá-lá tem direito a condução sustentada pelos contribuintes?

Não vi uma menção de um só jornalista a esse respeito… Onde está a nossa imprensa?

Ah! Já sei! Ela está lá-lá…

Mas… Voltando a Deus. É mais do que sabido que Deus prega – ou ordena, uma vez que, afinal de contas, Ele é o dono de tudo e muitas e muitas vezes nos deixa com a certeza de que somos filhos do leiteiro e não do dono – a humildade.

E deve dar muita risada quando escuta a propaganda eleitoral em que ele-lá-lá diz com a maior cara dura-hirsuta: “Agora, conheço o mundo e o mundo me conhece”.

De fato…

Maior humildade é impossível. Mas, talvez ele-lá-lá tenha razão. O mundo o conhece, especialmente os biólogos que, hoje, têm uma nova espécie para estudar: Bufo hirsutus.

E só espero que Deus, tendo o palhaço de quem rir, deixe um pouco de lado a Sua ira e sorria com benevolência para nós, pobres brasileiros, e permita que surja – agora, acho que mesmo só por milagre – um tuiuiú de bico forte e estômago mais ainda, que engula o Bufo hirsutus e, como sobremesa, faça uma limpeza na lagoa e elimine todos os candirus que por lá-lá se encontram, parece que com a única finalidade de entrar no buraco dos outros…

E, mais uma vez, que me perdoem os tuiuiús, os candirus e, especialmente os sapos, que não merecem ter um colega de gênero tão ruim.

FONTE: http://www.ryoki.com.br

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