Wednesday, August 22, 2007

Não vai sobrar ninguém

Por que será que não nos surpreendemos mais com essas notícias que vêm de Brasília? A cada dia que passa é uma novidade… E novidades que, em outros países, especialmente ao norte do Equador, seriam suficientes para, no mínimo, causar renúncias de cargos, demissões e – conforme o caso – até mesmo suicídios.

Mas aqui nesta terrinha abençoada por um Deus que se faz representar por Herr Hatzinger (daí, talvez, a certeza de sua falibilidade), as novidades acontecem, as denúncias surgem, há uma certa agitação – para inglês ver – e, assim que a poeira assenta, tudo volta ao status quo ante. Nada acontece, tudo continua absolutamente igual. Apenas nossos políticos sujaram-se um pouquinho mais – mas nada que uma boa lavadeira não consiga consertar, especialmente se essa lavadeira já estiver bem treinada numa certa forma muito peculiar de lavagem.

Agora foi a vez do Renan. Ele mesmo, o Calheiros, presidente do Senado. Um homem que deveria ter conduta exemplar, comportamento a servir de modelo.

Mas não… Eis que surge uma filha, uma mulher que o leva à Vara de Família por causa de pensão alimentícia e comprovação de paternidade. Coisas que costumamos ver nos jornais, implicando pessoas de esferas político-sociais bem mais baixas e que, vez por outra, acabam em tragédia.

Aliás, a bem dizer a verdade, a tragédia aí já está: o presidente do Senado envolvido com propinas, presentes inadequados, aventuras extra-conjugais, filha fora-de-hora. Um caso amoroso ainda pode ser perdoável – desde que exista realmente o amor. Não é porque um indivíduo está ocupando a cadeira central da mesa do Senado que ele está livre de se apaixonar, de sentir a necessidade de mudar a vida. Tal fato já ocorreu com tantos… Veja-se o exemplo do Ciro Gomes. Mas ele assumiu. E o caso não foi parar em nenhuma Vara de Família.

Com o Renan foi bem diferente. A prova de que não houve amor está justamente no fato de a mulher envolvida ter de ir parar diante de um Juiz para discutir pensão alimentícia e paternidade. Se amor houvesse, esses detalhes seriam absolutamente supérfluos. Como dizem os advogados, intempestivos, impertinentes e extravagantes.

Outro fator a ser considerado: ao assumir um “rebento”, é no mínimo mais ou menos normal que o pai assuma o seu sustento tirando do próprio bolso as despesas decorrentes da existência de um ser que, de fato, não pediu para vir ao mundo. E o Renan “entregou” a lista dessas despesas para uma empresa… Que certamente não aceitou tal encargo simplesmente pelos belos olhos envidraçados do Senador. Sabemos todos que no mundo dos negócios e da política, não há essa história de ir para a cama por amorzinho… Há pagamento, troca, barganha, escambo. Isso sim.

No episódio Renan, houve apenas um “caso”. Tão fortuito que as conseqüências acabaram por gerar a confusão. E a confusão não é a menina – por sinal, se puxou a mãe, será bem bonita – mas sim a necessidade patológica de seguir errado aquilo que começou torto. Houve o erro – de cálculo, de comunicação, de pontaria – e parece que o implicado na história pensou seguindo a velha norma do “perdido por perdido, perdido e meio”. E isso para ser delicado… Por que gastar o meu dinheiro se é tão simples fazer com que outros gastem por mim? Por que pagar por um ato se outros podem fazê-lo por mim? Na verdade, parece ser esta a sina do brasileiro – o comum, aquele que trabalha e sofre calado, aquele que não foi laureado com um diploma de político e nem deixou um lugar reservado no Inferno – aquele que Herr Hatzinger garantiu que existe para punir as pessoas que andam mal nesta vida – e transformaram-se em empresários ou profissionais corruptos. A sina do brasileiro é pagar para qe outros usufruam. Cinco meses de trabalho por ano só para pagar impostos! E ainda se valesse a pena…!

Mas é isso aí… A julgar pelo que andamos vendo nestes últimos tempos, periga de não sobrar ninguém no Congresso, no Judiciário, no governo.

Mas, como já foi dito antes e até virou título de livro, sempre há esperança.

E a esperança é praticamente uma certeza, pois o Poder Judiciário, num formidável mecanismo de auto-defesa, acabará por absolver todo mundo – ou quase todo mundo, deixando um ou outro Tiradentes ser sacrificado – de forma que sempre sobrará muita gente.

Concomitantemente, o Congresso fará o mesmo.

E nós continuaremos a acreditar no IBGE, no IBOPE, nos índices, nas porcentagens, nas palavras e lágrimas do Presidente… Continuaremos a pagar impostos para assistir ao desgoverno, para ver nossos representantes ganharem fortunas por mês, para ver os três pilares da nossa sociedade – a Segurança, a Educação e a Saúde – esboroarem dia após dia, governo após governo.

E Deus – que disseram ser brasileiro – parece achar graça.
O que não é contraditório, pois nós somos mesmo uma piada. Pena que seja uma piada muito sem graça.

FONTE: http://www.ryoki.com.br

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Monday, August 20, 2007

A Beleza Feminina

Escuto, indiscreto sem querer, a conversa do casalzinho que está à mesa ao lado da minha, num restaurante qualquer.
Muito séria, a mocinha pergunta:
- O que é que você considera “uma mulher bonita”?
Galante e até mesmo um pouco anacrônico, o rapaz responde:
- Uma mulher como você…
Não posso deixar de considerá-lo cavalheiro, mas da mesma maneira, eu o acho um pouco pobre no que diz respeito à definição.
Sorrio, com tristeza, de mim mesmo.
Se sou capaz de me julgar capacitado à crítica, essa capacidade se deve apenas à idade… O que tenho, no fundo, não passa daquele ciúme nostálgico que bem pode ser explicado como “inveja da juventude”…
A mocinha, mais objetiva e bastante exigente, não se contenta com aquela resposta e reclama:
- Você não disse nada. Não respondeu à minha pergunta.
Muito mais esperto do que eu poderia imaginar, o rapaz lhe dá um beijinho, outro e mais outro, atacando imediatamente em seguida seu prato, deixando o assunto tombar por terra.
Está decidido a não responder, a não se comprometer…
Pois bem, cara mocinha, minha bela menina-mulher… Já que seu companheiro não satisfez sua curiosidade, vou procurar fazê-lo.
Em primeiro lugar, não pense você que a presença destes cabelos brancos e destas rugas que maldosamente já começam a me circundar os olhos e a tornar mais duro o meu sorriso, sejam motivos suficientes para você me classificar de “velho”. Posso ser mais idoso que você e seu companheiro juntos mas, ainda falta muito para que eu me considere velho e ultrapassado.
No fundo, esses anos todos que já vivi, no mínimo serviram para que certos conceitos meus sejam um bocado diferentes da média, sejam talvez muito subjetivos e até difíceis de explicar, mas pode acreditar, minha menina bonita, são conceitos trabalhados, vivenciados e muito analisados…
Conceitos que, pelo menos, me satisfazem e que, no que diz respeito à beleza feminina, pode ser que a satisfaçam também.
Certa vez, ouvi um desses filósofos de bar dizer que o belo na mulher é exatamente aquilo que se contrapõe ao feio do homem.
Talvez seja esta uma boa maneira de entender como e por que mulheres tão bonitas se casam com homens tão feios… e vice-versa.
Mas na minha opinião, são balelas, ginásticas mentais e palavrório inútil.
Uma mulher é bela porque…
É simplesmente bela.
Ao lado da parte física, a matéria harmoniosamente constituída, as linhas e curvas esteticamente bem equilibradas, há algo mais, há qualquer coisa que faz com que o homem que a vê sinta, de repente, um enlevo todo especial e a deseje…
Sim, ele pode desejá-la e de muitas maneiras.
Talvez até mesmo como eu a estou desejando agora, sem nem sequer pensar em qualquer coisa que seja diferente de um platonismo até fora de moda.
É esse algo mais, essa aura que circunda a mulher que é bela, que é capaz de fazer com que uma criança - esse serzinho que ainda não tem maldade em sua alma, que não tem malícia alguma em seu coração e não possui qualquer idéia carnal em sua mente -a veja e diga, com um sorriso encabulado:
- Você é bonita…
Seria, essa aura, uma expressão ectoplásmica da bondade?
Não sei…Não sei definir muito bem o que possa ser a bondade feminina.
Seria a capacidade de se entregar ao amor, de se dedicar ao homem que ama, de se desdobrar como diz Raimundo Corrêa, “desfiando fibra por fibra o coração” em relação a seus filhos? Ou seria a bondade apenas o fato de ser cordata, dócil, simpática e sempre pronta a servir?
Há mulheres belas que não são assim…
Têm sua vida própria, seu brilho próprio, independem de todo e qualquer homem, não querem saber de filhos - estes atrapalhariam seus objetivos - e nem por isso deixam de ser belas, deixam de ser desejadas…
Mas…
Olhando-me interiormente, avaliando a experiência que estes cabelos brancos provam, penso se estas mulheres, belas, belíssimas, maravilhosas e atraentes, mulheres por quem um homem seria capaz de cometer as maiores loucuras, penso se elas continuarão merecedoras de toda essa devoção… dentro de trinta anos.
Sim.
Dentro de trinta anos, quando a chamada “idade madura” chegar, com o grisalho nos cabelos, as juntas já um tanto rígidas, a disposição para tudo, bem arrefecida, a vida marcada por desencontros e desencantos, por desilusões e frustrações, será que essas mulheres continuarão belas?
Ou será que em seus rostos, já então vincados, não estará mais presente do que qualquer outra coisa, o amargor decorrente de tudo o que foi vivido, de tudo quanto foi passado, sofrido e, sobretudo, de todos os momentos perdidos na perseguição de um ideal, de uma meta que, fundamentalmente, não era a sua?
Veja, minha bela menina-mulher…
Sim, pois você é bela, pelo menos ainda…
Continue assim como a vejo, olhando com carinho para esse bobalhão que está à sua frente… Continue a ser como é, a pensar como uma menina e a agir como uma mulher.
Talvez seja esse o segredo…
Tenha suas metas, persiga-as. Alcance-as. Realize seus sonhos materiais, profissionais, financeiros.
Conquiste seu lugar na cruel sociedade, seja alguém, vença!
Mas, para que continue a ser bela, para que até mesmo esse apolônico imbecil que a tem hoje, continue a seus pés, é preciso apenas uma coisa: é preciso que você jamais deixe de ser, simplesmente, mulher…
Posted by Kirsteller at 04:49:25 | Permalink | No Comments »